De fla-flu em fla-flu

Cida Damasco

17 de agosto de 2016 | 15h39

No Brasil dos últimos tempos tem sido sempre assim. Tudo vira disputa e das mais acirradas. Do paladar dos biscoitos Globo, criticado num artigo de um jornalista do New York Times, ao comportamento da torcida brasileira na vitória de Thiago Vaz no salto com vara, passando pela competição (inexistente na vida real) entre as meninas e os meninos do futebol.  As inflamadas discussões em torno desses temas – uma medalha de ouro para saber qual será o próximo – vêm incendiando as redes sociais e rendendo até interpretações sociológicas para esse momento fla-flu do País.

Se isso ocorresse apenas nos Jogos Olímpicos, até que seria adequado. O preocupante, contudo, é que, desde as jornadas de rua de 2013, o espírito da radicalização tomou lugar da conciliação, invadindo a campanha presidencial de 2014, a batalha do impeachment de Dilma Rousseff de 2015/2016. E agora, com o cenário presidencial mais definido, contamina o debate em torno da “matriz econômica” do governo Temer.

Ajuste fiscal. Pois bem, até pouco tempo atrás parecia uma unanimidade. Se foi sempre ponto de honra para os ortodoxos, ganhou a adesão recente dos chamados neodesenvolvimentistas. Sem ajuste fiscal, concordam todos, não há retomada do crescimento à vista num horizonte razoável. A polêmica agora, no entanto, tem sido a receita do ajuste. Corte radical de gastos temperado com venda e até fechamento de empresas estatais? Corte mais brando misturado com aumento de impostos?

Trata-se de definir, em outras palavras, até onde a equipe econômica terá de mexer na sua proposta original para obter as graças do Congresso. Estamos falando de subordinação das decisões da área econômica às ingerências políticas. E aí entra o fla-flu: o que uns (principalmente no mercado financeiro) chamam de “ceder” às pressões políticas, outros, mais realistas, classificam de negociação.

Em audiência pública no Senado, nesta terça-feira, o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Mansueto de Almeida, um dos maiores especialistas na área fiscal e notório defensor de corte de gastos, deixou bem claro que o ajuste fiscal não sai antes de dois anos, que o governo não é empresa privada e que quem decide a velocidade do ajuste são os políticos, dentro do Congresso.

Querem um exemplo: bancadas de senadores do Norte, Nordeste e Centro-Oeste tentam pressionar Temer a atender pleitos dos governadores e articulam barrar o projeto de renegociação das dívidas dos Estados.

Na audiência pública, Mansueto simplesmente respondeu aos críticos das propostas negociadas pela equipe econômica de Temer, entre os quais se incluem integrantes da própria base do governo. É o caso de parlamentares tucanos, até mesmo aqueles que, nos estertores da administração Dilma, trabalharam para implodir no Congresso a tentativa de ajuste do então ministro da Fazenda, Joaquim Levy

No quesito reformas, então, o fla-flu ganha contornos de final de campeonato. Os inimigos das reformas da Previdência e trabalhista sustentam sua oposição com um argumento no mínimo simplista – por que o governo não ataca os ganhos financeiros em vez de retirar os direitos dos trabalhadores? Sem contar as ameaças que, segundo eles, estariam “camufladas” nas tais reformas:  fim do 13º salário, das férias remuneradas etc etc e tal.

Os defensores radicais das reformas, por sua vez, prometem a chegada ao paraíso se as reformas forem em frente. Mais equilíbrio na distribuição de recursos do Orçamento, menos privilégios a algumas categorias profissionais, mais garantia de pagamento de aposentadorias, mais empregos sem as amarras da CLT. E assim por diante. Bom seria se o fla-flu se limitasse ao esporte, que é seu lugar, e guerra de torcidas desse lugar a debates mais consistentes e ponderados.

 

 

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