Deflação reforça expectativa de baixa dos juros

Cida Damasco

09 de outubro de 2019 | 16h05

Se ainda havia alguma dúvida sobre a continuidade da descida dos juros, ela desapareceu com a divulgação do IPCA de setembro. A deflação de 0,04% registrada no mês passado corresponde à menor taxa para setembro desde 1998 e traz a acumulada em 12 meses para 2,89%, abaixo de 3% pela primeira vez desde maio de 2018. Bem inferior, portanto, ao centro da meta fixado para 2019, que é de 4,25%, com tolerância de 1,25 ponto para mais ou para menos. E quase encostando no piso, que é de 2,75% — fora desse intervalo, o presidente do Banco Central (BC) é obrigado a enviar uma carta para o ministro da Fazenda, explicando as razões para o descumprimento da meta.

Os itens que trouxeram de volta a deflação, em setembro, foram alimentos e artigos para residência — cujos preços tiveram quedas de 0,70% e 0,76%, refletindo, principalmente no segundo caso, a fraqueza do consumo. Embora a pesquisa Focus, do BC, aponte uma taxa Selic de 4,75% para o fechamento deste ano, no mercado já há quem trabalhe com um número inferior a essa marca, aliás inferior a 4,5%. Algo impensável até pouco tempo atrás.

Para o público em geral, deflação pode até parecer boa notícia. Especialmente para quem viveu a época da hiperinflação no Brasil. em que as taxas mensais chegaram a superar 80%. Remarcação de preços era a “atividade” prioritária nas empresas. Apostar corrida com a inflação era desafio diário de consumidores, assalariados e pequenos investidores, que, salvo raras exceções, acabavam derrotados.

O problema, porém, é que, nos dias de hoje, a inflação brasileira “quase no chão” não é apenas resultado de uma boa execução da política monetária. Trata-se de um sinal inequívoco de demanda também quase no chão. Prova disso é que mesmo pressões sobre o câmbio decorrentes da guerra comercial entre Estados Unidos e China — que em outras circunstâncias produziriam estragos na inflação — não estão conseguindo chegar aos preços.

A discussão agora é por quanto tempo a demanda permanecerá “congelada” e, em consequência, o que é preciso fazer com o juro para ajudar a mudar esse quadro. A equipe econômica resistiu o quanto pôde às pressões para incentivar o consumo e acabou repetindo a fórmula do governo Temer de liberar recursos do FGTS e PIS-Pasep — mas há uma avaliação geral de que os efeitos dessa ação serão limitados. Estímulos fiscais, nem pensar.

Restam os juros, que devem continuar ladeira abaixo. Por enquanto, os investidores é que estão sentindo no bolso os efeitos desse declínio. Assumir riscos virou quase sinônimo de obter ganhos reais nas aplicações financeiras. Em contrapartida, quem contrata empréstimos ou faz algum tipo de financiamento ainda está à espera de uma mudança mais efetiva. Ou seja, de uma queda para valer nos juros da vida real.

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