Déjà-vu

Cida Damasco

12 Dezembro 2016 | 11h41

Seis meses de governo Temer e já se sente um clima de déjà-vu no ar. Com a popularidade – que já era baixa – despencando e sob o impacto da demolidora delação de um dos executivos da Odebrecht, a saída encontrada pelo governo é “continuar trabalhando” e acelerar a pauta econômica. Não por acaso, a mesma alternativa buscada pela ex-presidente Dilma Rousseff, quando o governo começou a desmoronar e o então ministro Joaquim Levy percorria os corredores do Congresso tentando emplacar medidas de ajuste fiscal.

Claro que as situações têm suas peculiaridades. Apesar de todos os obstáculos,  a equipe econômica de Temer conseguiu tocar em frente exatamente as pautas que os empresariado, base importante do governo,  reclamava há um bom tempo: PEC do teto de gastos públicos e reforma da Previdência.

Mais recentemente, o mesmo empresariado passou a pressionar por medidas específicas para tirar a economia da letargia – já que há praticamente um consenso de que só as expectativas não são suficientes para empurrar os investimentos e, por tabela, o crescimento. Pior ainda, no meio desse tumulto político, as expectativas podem mudar de lado e até trabalhar contra esse circuito. A avaliação é que o governo não pode continuar se movendo unicamente pela agenda do ajuste fiscal – e, portanto, haveria necessidade urgente de pôr em prática uma agenda pró-crescimento.

Trabalhando nessa direção, a já anunciada aceleração da queda dos juros viria junto com medidas microeconômicas destinadas a melhorar o ambiente de negócios: entre outros itens, a reedição e ampliação do Programa de Proteção ao Emprego, algum tipo de facilidade para a quitação de dívidas, e alguns atalhos para tornar mais flexível a legislação trabalhista, independentemente de uma reforma maiúscula, para a qual provavelmente não haverá tempo. Medidas que estariam sendo estudadas para 2017, mas que por razões óbvias foram antecipadas.

Se o quadro econômico é mesmo de estagnação e exige providências, onde mora o perigo de um pacote desse tipo? Primeiro, teme-se que os políticos se animem e tentem incluir alguns itens que desfigurem o programa econômico. Segundo, mas no caso o principal, teme-se que o próprio Temer se anime e imagine que isso será suficiente para dar respostas à crise política.

A crise é grave e o ativismo na economia, sozinho, não pode dar conta do recado. Está aí Dilma que não deixa mentir.