Depois da retomada “mais lenta”, a ameaça da recessão

Cida Damasco

30 de maio de 2019 | 10h38

Continua a corrida para “acertar” as projeções do PIB no encerramento do ano. Segundo a pesquisa Focus, a aposta é de um avanço modesto de 1,23%, mas já há quem mire 1% ou até menos. Não que o resultado do primeiro trimestre divulgado pelo IBGE, com uma queda de 0,2% sobre o anterior e uma alta de 0,5% sobre igual período de 2018, estivesse fora das planilhas de investidores, economistas, empresários e políticos. Mas parece que a confirmação oficial de novo recuo da economia funciona como um aval para a revisão das estimativas que circulam especialmente pelos mercados.

Ninguém recorre mais a eufemismos do tipo “retomada mais lenta”. É queda mesmo e palavras ainda mais amargas, como estagnação, recessão e depressão, começam a ser utilizadas para qualificar o ciclo atual da economia brasileira. Desfaz-se também a ilusão de que a simples mudança de governo despertaria a confiança de consumidores e o “espírito animal” dos empresários, que trariam um mar de investimentos para a economia brasileira.

Prova é que, sob o ângulo da demanda, foram justamente os investimentos que tiveram baixa expressiva de janeiro a março — 1,7% sobre o trimestre anterior, em comparação com redução de 1,9% nas exportações, e altas de 0,3% no consumo das famílias e de 0,4% no consumo do governo. Pelo critério da oferta, só o setor de serviços registrou um desempenho positivo e assim mesmo medíocre — alta de 0,2%, frente a baixas de 0,7% na indústria e 0,5% na agropecuária.

A hora é de “cair na real”, reconhecer que, em termos de crescimento, 2019 já se foi e discutir com mentes abertas as saídas para essa crise dramática. Nesse sentido, começa a ser abandonada a retórica de que a aprovação da reforma da Previdência, por si só, acabaria imediatamente com as nuvens carregadas que ameaçam o cenário econômico.

É indiscutível que, sem uma reforma da Previdência, não dá nem para pensar em voltar a crescer. Mas esse efeito não será imediato e também poderá ser mais fraco do que se promete, caso não venham outras mudanças, como a tributária. Já há uma experiência frustrada com a reforma trabalhista, que alguns defensores mais exaltados “venderam”, à época, como necessária para destravar o mercado e, por tabela, criar novos postos. Não foi o que se viu. Novas vagas são raras e concentram-se no preocupante terreno da informalidade. Com a atividade econômica estagnada, mais de 13 milhões de pessoas continuam sem ocupação em todo o País.

Apesar de todos os tropeços da articulação política do governo Bolsonaro, há uma expectativa de aprovação da reforma da Previdência — não aquela de R$ 1 trilhão, que virou mantra do ministro Paulo Guedes, mas um pouco mais modesta, uns R$ 200 bilhões a R$ 300 bilhões abaixo dessa marca. Mesmo esse resultado, porém, não fará efeito substancial a curto prazo na atividade econômica, a ponto de garantir um crescimento mais parrudo do PIB. Ortodoxos e heterodoxos reconhecem que é preciso “algo mais” para mudar esse roteiro.

Nos mercados, os investidores não fazem outra coisa, nos últimos tempos, senão acompanhar a gangorra das expectativas sobre a Previdência. Uma declaração mais desastrada dos articuladores de Bolsonaro, bolsa para baixo e dólar para cima. Uma manifestação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de que será possível votar a reforma em tempo hábil, e trocam-se os sinais. No mundo real da economia, porém, os “acertos” de posições não são imediatos. Incerteza quer dizer menos ânimo para consumir e menos disposição para investir. Um circuito perigoso para uma economia que mal saiu da recessão e ronda de novo esse território.

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