Depois

Cida Damasco

29 de agosto de 2016 | 18h41

Daqui a algum tempo, quem se dedicar à tarefa de examinar os sinais emitidos pela economia, no dia em que Dilma Rousseff compareceu ao Senado para se defender do impeachment, poderá até duvidar da veracidade dos registros. Mercado calmo, com Bolsa de Valores em alta e dólar em baixa, mas sem nenhum solavanco. Nenhuma mudança significativa de rumo nas previsões para os principais indicadores, colhidos na pesquisa Focus do Banco Central.

Nada que faça lembrar que esse 29 de agosto é um dia histórico, com uma presidente afastada inquirida pelo Senado, no segundo episódio de impeachment no período pós-redemocratização do País (o primeiro foi com Collor, em 1992). Nada que indique a tensão política que dominou durante todo o dia o Congresso, onde debates técnicos sobre desvios da política fiscal – que, na figura, das “pedaladas”, embasaram o processo de impeachment – deram passagem a discussões sobre golpe/instituições/democracia.

Mercados e agentes econômicos são assim mesmo, diriam alguns. “Insensíveis” a momentos históricos, voltados apenas para os ganhos do dia. Mais do que isso, no entanto, essa reação de calmaria é uma prova de que há um bom tempo os agentes econômicos embarcaram no governo Temer, convencidos de que a grande mudança se deu no dia 12 de maio, quando Dilma trocou o Palácio do Planalto pelo Alvorada. Para eles, a hipótese de  “Dilma, o retorno” não fazia parte do roteiro.

Nesse sentido, os ataques à “nova matriz econômica” de Dilma soam quase como coisa de um passado recente. Tudo o que preocupa, agora, é o que fará o novo Temer – aquele que está próximo de se livrar das amarras da interinidade.

Os mais otimistas apostam no fortalecimento do cacife de Temer, principalmente se a maioria de votos a favor do impeachment for acachapante. Com isso, o governo ganharia musculatura para tocar em frente o ajuste fiscal e encaminhar as reformas constitucionais, Previdência à frente. De quebra, segundo revelou o Estadão, viriam algumas adaptações aos programas sociais da era petista, como o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e Ciência sem Fronteiras, além da criação de outros dois, destinados ao atendimento à primeira infância, e à reforma de casas populares — todos com impacto eleitoral.

Os mais realistas, porém, já estão considerando que as mudanças não serão tão radicais quanto se imagina. As resistências viriam de dentro da própria coalização que sustenta Temer. Até porque a oposição – leia-se o PT – passou os últimos tempos tentando dar alguma coerência à defesa do mandato de Dilma e agora tem a dura missão de se reorganizar para atuar no Congresso e acumular forças para as eleições de 2018.  2016, tudo indica, para o PT é um ano que já acabou.

Eliminada a barreira do impeachment, porém, vêm aí as eleições e seus desdobramentos no front da economia. Vai haver quórum para votações importantes? E, se houver, quem vai arcar com a aprovação de temas indigestos, como alguns embutidos no ajuste fiscal e nas reformas, tendo de prestar contas ao eleitorado logo adiante? Melhor mirar 2017. E aí 2018 já estará próximo.

 

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