Dinheiro na praça

Cida Damasco

14 de fevereiro de 2017 | 17h13

 

As consultorias de investimento  já começam a se mexer para atrair o dinheiro das contas inativas do FGTS que vai pingar no mercado a partir do dia 10 de março. Elas tentam atrair clientes normalmente distantes desse universo com a “cereja no bolo” de que hoje há uma série de aplicações disponíveis para recursos a partir de R$ 1 mil e reforçam que qualquer uma dessas opções rende mais do que deixar o dinheiro dormindo no FGTS. Mesmo a “mal falada” caderneta de poupança.

Mas, ao decidir liberar os saques das contas inativas, o governo não está de olho no mercado financeiro mas principalmente no consumo. Mais especificamente no estímulo à quitação de dívidas, que abre espaço à “reabilitação” dos consumidores para assumir novos compromissos – e, com isso, fazer girar de novo a roda dos negócios. Afinal, são R$ 43 bilhões depositados em 49 milhões de contas e uma estimativa de retiradas da ordem de R$ 35 bilhões. Nada capaz de provocar uma corrida ao consumo, obviamente. Até porque a liberação dos saques será gradativa, dentro de um cronograma que vai até julho.

A medida, que integra o pacote de fim de ano anunciado como pró-crescimento, dá bem a dimensão dos dilemas enfrentados pela equipe econômica diante da impaciência generalizada com a demora da reação da atividade econômica. Era preciso fazer “alguma coisa”, mas essa “alguma coisa” não poderia nem de longe lembrar os estímulos ao consumo dos tempos de Dilma.

Neste começo de 2017, inclusive, o governo tem se empenhado para “vender” alguns sinais de alívio apresentados no quadro econômico, com o objetivo de romper esse clima de ceticismo em relação ao fim da recessão. Mas é fato que os sinais ainda são esparsos e modestos – e, a cada resultado positivo, surge logo em seguida um negativo ou pelo menos não tão positivo, suficiente para minar o ânimo dos agentes econômicos.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com o balanço do desempenho do varejo no fechamento de 2016, divulgado nesta terça-feira, 14, pelo IBGE. Não só o resultado do ano foi muito ruim – uma queda de 6,2% , a maior na série histórica iniciada em 2001 – como o mensal também não indicou uma trajetória de recuperação. As vendas de dezembro caíram 2,1% sobre novembro e 4,9% sobre o mesmo mês de 2015. Nenhum ramo do varejo encerrou o ano com desempenho positivo.

Uma explicação: o consumidor ainda está cauteloso e preferiu antecipar suas compras de Natal para aproveitar as ofertas da Black Friday em novembro. É, pode ser. Mas é inegável que a roda do consumo ainda está emperrada. A ver se a redução do endividamento do consumidor terá força para dar novo impulso a ela.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.