Dívidas … e dívidas

Cida Damasco

27 Setembro 2016 | 15h40

Nesse vaivém dos indicadores da atividade econômica, a pergunta que mais se ouve é a seguinte: quando as famílias e as empresas vão voltar firme ao consumo? Dessa resposta depende, em linhas bem gerais, a definição de quando a economia deixará de patinar e embarcará de fato num novo ciclo de crescimento.

Do lado das famílias, há alguns sinais favoráveis para o ano que vem. Nesse sentido, vale olhar com cuidado para o Índice de Confiança do Consumidor, calculado pela Fundação Getúlio Vargas. De 79,3 pontos em agosto, ele subiu para 80,6, o maior nível desde janeiro de 2015 – quando havia alcançado 81,2 pontos. É a quinta alta seguida desse índice. Mais do que essa evolução, porém, o que dá a medida do “sentimento” do consumidor é o comportamento do indicador que mede as expectativas das famílias sobre a situação financeiras nos seis meses seguintes – subiu 3,1 pontos e chegou ao nível mais elevado desde outubro de 2014.

Traduzindo essas estatísticas para o mundo real, isso quer dizer o que? Quer dizer que o consumidor acredita que, no primeiro trimestre de 2017, estará com suas finanças mais ajustadas. Em condições, portanto, de assumir novos compromissos, fazendo girar a roda do consumo e, por tabela, a atividade econômica. Pergunta que não quer calar: como estará o emprego e como estarão os salários até lá? Serão suficientes para animá-lo a contrair novas dívidas?

Aí as dúvidas voltam. É bom lembrar que, nesse momento, o grau de confiança dos consumidores é melhor em relação ao futuro do que ao presente. É mais ou menos como reagem os agentes do mercado, torcendo para que as promessas de melhora na economia se concretizem rapidamente, mas ainda um tanto impacientes quando constatam que, de fato, essa melhora ainda não chegou.

Além disso, no momento, os índices de endividamento do consumidor ainda são elevados. Segundo pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) realizada em 27 capitais, 76,1% dos entrevistados que contrataram algum tipo de empréstimo não pagaram as parcelas em dia. E, nas compras com cartão de loja, a proporção é de 73,1%. Números parecidos com os verificados em 2015, mas mais elevados do que em 2014.

Em relação às empresas, a situação também não é confortável.  Levantamento do Centro de Estudos do Instituto Ibmec mostra que em 49% das grandes empresas a geração de caixa não consegue dar conta do pagamento dos juros das dívidas. Entre 2010 e 2015, o endividamento das companhias acompanhadas pela pesquisa subiu 173%, chegando a R$ 1,9 trilhão. Com isso, a inadimplência de empresas tem aumentado fortemente – segundo a Serasa Experian, de janeiro a agosto deste ano o número de pedidos de recuperação judicial aumentou 60%. E os planos de expansão ficam compreensivelmente adiados para “quando for possível”.

O anúncio do novo programa de concessões do governo Temer até que foi bem recebido – embora o mercado ainda espere o detalhamento das novas regras. Mas, por mais amigável que ele seja com os investidores, esbarra na falta de fôlego das empresas para assumir novos compromissos.

Moral da história: famílias e empresas têm demonstrado confiança no desempenho futuro da economia, mas ainda estão no sufoco para alavancar, no presente, esse desempenho.