Economia “respira”, à espera das definições do novo governo

Cida Damasco

30 de novembro de 2018 | 12h05

Os números do PIB divulgados nesta sexta-feira, relativos ao terceiro trimestre, confirmam as estimativas dominantes no mercado de um crescimento modesto para o fechamento do ano. Com um avanço de 0,8.% sobre o segundo trimestre — quando a greve dos caminhoneiros afundou a atividade econômica — e de 1,3% sobre igual período do ano passado, o PIB caminha para virar 2018 nas proximidades de 1,5%. Sem surpresas.

Mas isso já são águas passadas, para quem está interessado em projetar o futuro próximo da economia brasileira. O principal, a estas alturas, é o que esses resultados indicam para 2019. Na bolsa de apostas da maioria dos analistas, o respiro da economia deve se acentuar no último trimestre e o PIB do primeiro ano do governo Bolsonaro deve saltar um ponto, para 2,5%. E, para os mais otimistas, é possível até chegar nas vizinhanças de 3%.

Projeções ancoradas na realidade ou esperanças naturais, ligadas simplesmente à chegada de um novo governo? A melhora nos indicadores de confiança, tanto dos consumidores como dos empresários, mostra que há um clima razoável para a “retomada da retomada” da atividade econômica. Mudança de astral compreensível, quando se leva em conta a eliminação das incertezas eleitorais e da instabilidade persistente no cenário político/econômico desde o impeachment de Dilma Rousseff.

Esse alívio, contudo, é insuficiente para garantir um crescimento vigoroso em 2019 e principalmente para manter um desempenho consistente nos anos à frente. É preciso mais para que os indicadores de confiança se traduzam em mais consumo e mais investimento. No terceiro trimestre, o consumo das famílias aumentou 0,6% em relação aos três meses anteriores e 1,4% sobre o ano passado. E os investimentos registraram altas de respectivamente 6,6% e 7,8%. pelas duas bases de comparação — mas, nesse caso, os números foram “engordados” mais por uma mudança fiscal no setor de óleo e gás do que por um fortalecimento real dos investimentos.

O otimismo cauteloso em relação a 2019 funciona mais ou menos como se a nova equipe econômica recebesse um crédito de confiança e tivesse, agora, de trabalhar pesado para não desperdiçá-lo. Aí entra em cena o desempenho efetivo do novo governo. Especialmente a estratégia que será escolhida por Paulo Guedes e seu time de liberais para reestruturar as finanças públicas, com destaque para a proposta de reforma da Previdência, E ainda a articulação política que será definida pelo Planalto para a negociação dessas medidas com o Congresso — o que, por sinal, ainda é fonte de grande preocupação.

Se para os mercados e o setor produtivo esses são pontos cruciais, para a população em geral as expectativas convergem para algum tipo de alento à atividade econômica, a curto prazo — em outras palavras, para um “empurrão” na reação do mercado de trabalho. É verdade que o desemprego continua em queda, mas com grande lentidão e à custa da informalidade: segundo o IBGE, a taxa de desemprego no trimestre encerrado em outubro ficou em 11,7% da força de trabalho, o que corresponde a 12,4 milhões de pessoas sem ocupação. Muita gente ainda sem oportunidade de emprego, inclusive os jovens que chegam ao mercado.

Como bem resumiu a economista Silvia Matos, do Ibre-FGV, os resultados do terceiro trimestre mostram que “sobrevivemos”.  Boa notícia. Agora, o desafio é cuidar da saúde para ir além e com mais qualidade.