Fim de temporada no Copom e o desafio do juro na vida real

Cida Damasco

12 de dezembro de 2018 | 19h11

O governo Temer termina em poucos dias, com juro básico de 6,5% ao ano, o mais baixo da história. A reunião desta quarta-feira do Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic no mesmo nível pela sexta-vez consecutiva e as perspectivas de analistas e investidores são de que não haverá mudanças na maior parte do ano que vem.

Um feito e tanto, considerando que a Selic resistiu no patamar de 14,25% entre julho de 2015 e agosto de 2016, começando aí um longo e persistente declive. O saldo só não foi mais positivo porque esse movimento não foi acompanhado com a mesma intensidade e a mesma velocidade pelos juros do dia a dia. Que o diga quem tenta levantar um financiamento para comprar um bem de consumo, tomar um empréstimo ou, mais ainda, quem é obrigado a cair no cheque especial para cobrir as despesas do mês.

Segundo o BC, a taxa média das operações contratadas em outubro foi de 24,6% ao ano, quase quatro vezes a Selic. Na chamada carteira livre, que exclui o crédito direcionado a setores determinados, e especificamente para pessoas físicas, os juros chegaram a 38% e 51,9% ao ano — cerca de seis e oito vezes a Selic. E o mais preocupante é que minguaram as ilusões de que a descida dessas taxas seja acelerada num horizonte próximo, diante da forte concentração do mercado bancário.

Mas, se essa ação é vista como difícil, também é inegável que ela faz parte das aspirações tanto de empresários como de cidadãos comuns. Consciente de que esse assunto pode voltar à roda — até porque reivindicações e cobranças costumam ser recorrentes em mudanças de governo –, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) acaba de lançar a publicação “Como fazer os juros serem mais baixos no Brasil”, definida como uma proposta dos bancos ao governo, Congresso, Judiciário e à sociedade.

No prefácio, assinado pelo presidente da entidade, Murilo Portugal, a Febraban ataca o “debate ideológico” dos juros, defende mais competição no setor bancário, mas com a ressalva de que apoiará só as “medidas não discriminatórias” para alcançar esse objetivo. Entre as razões macroeconômicas dos juros e spreads elevados em vigor no Brasil, os bancos apontam “inflação alta e volátil, situação fiscal precária e desequilíbrios nas contas externas”. E, entre as microeconômicas, a inadimplência, “vilã nº 1”, o peso dos tributos e dos depósitos compulsórios.

É exatamente por esses motivos que tem efeito limitada a chamada função estimulativa dos juros reduzidos, invocada com frequência pelo BC.  Com a atividade econômica morna — mais para fria, em alguns momentos –, o BC tem optado por manter a Selic baixa, mesmo quando surgem no horizonte algumas pressões de custo. E, fato, a fraca demanda tem contido o repasse dessas pressões para os preços. Nesse cenário, alguns economistas chegaram a defender mais cortes na Selic. Porém, com mais ou menos ousadia na administração da Selic, é indiscutível que o estímulo à economia seria bem mais eficiente se o movimento dos juros na praça espelhasse o dos juros do Copom. Um bom desafio para o governo Bolsonaro.

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