IPCA, o lado B da recessão

Cida Damasco

11 Janeiro 2019 | 12h18

Se há um quesito em que a economia brasileira não inspira grandes preocupações, pelo menos até o momento, é a inflação. Depois de alguns sustos, como o choque temporário de oferta provocado pela parada dos caminhoneiros e a disparada do dólar às vésperas das eleições, os preços voltaram a ficar bem comportados. E, com uma alta de apenas 0,15% em dezembro, o IPCA fechou o ano com um resultado acumulado de 3,75%. Bem abaixo do centro da meta estipulada para o ano — 4,5%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima e para baixo.

Dessa vez não será necessário o Banco Central (BC) enviar uma carta de justificativa ao Ministério da Fazenda, como aconteceu em 2017, mas o fato é que a taxa ficou abaixo também das expectativas que corriam pelo mercado até poucos meses atrás. Menos mal. Um problema a menos para a equipe econômica do governo Bolsonaro, que está enredada na formatação de propostas de reformas, notadamente a Previdência, para impedir o desarranjo total das finanças públicas.

Sem desmerecer o papel exercido pelo BC para calibrar os juros com a meta de inflação e a função “estimulativa” da retomada do crescimento, não se pode esquecer do “lado B” desse bom resultado. Foi, sem dúvida, uma consequência direta da atividade econômica morna de todo o ano passado — que começou com a expectativa de um crescimento do PIB acima de 3% e terminou com um resultado efetivo na metade desse patamar. O “vai-não-vai” da economia está claramente refletido nas taxas de inflação dos últimos meses e também nas projeções para este ano.

A pesquisa Focus mais recente aponta um IPCA de 4% para o fechamento de 2019, inferior ao centro da meta de 4,25%, também com tolerância de 1,5 ponto. Um quadro que indica a manutenção de juros básicos reduzidos — a mesma edição da pesquisa Focus põe a Selic do fim do ano em 7%, apenas meio ponto acima da atual, a mais baixa da história. Tudo combinando com um crescimento maior do PIB, mas nada de excepcional — algo como 2,5% –, e um cenário externo sem rupturas.

Mas e se a economia reagir com mais força, o que poderá acontecer com a inflação? Quais os desafios que serão postos ao BC de Bolsonaro e à estratégia política do governo, levando-se em conta que a queda vertiginosa da taxa Selic ainda não atingiu os juros na ponta do crédito? Essa é a pergunta que cabe fazer, ainda que uma forte aceleração da atividade econômica não esteja no radar.

Embora a evolução dos índices de confiança empresarial e dos consumidores seja bastante favorável, ainda leva tempo para que eles se transformem em mais consumo e mais investimentos. E não poderia ser de outra maneira. O que há de concreto, por enquanto, é a festa dos mercados, em comemoração às intenções manifestadas pela equipe econômica de adotar uma agenda liberal e promover a tão sonhada reforma da Previdência — mesmo que, dia sim outro também, essa agenda seja posta em dúvida por integrantes do próprio governo.