Juro cai mais, indica BC. E agora?

Cida Damasco

24 de setembro de 2019 | 15h31

A ata do Copom, divulgada nesta manhã pelo Banco Central (BC), confirma o que já estava claro no comunicado da última reunião: o juro básico deve continuar em queda e fechar 2019 em 5% ao ano. O mais baixo da história e se aproximando da realidade de vários países, em que as taxas andam em torno de zero, nesses tempos de economia estagnada.

Defendida há bom tempo por parte dos analistas e transformada mais recentemente quase num consenso, a queda do juro traz uma questão imediata. E agora? A pergunta, que já frequentava alguns círculos, “viralizou” particularmente depois da reunião do Copom, quando a Selic escorregou para 5,5% e levou o juro real para baixo de 2% ao ano.

Investidores de todos os “tamanhos”, em especial aqueles que têm suas pequenas economias ancoradas em fundos de renda fixa e caderneta de poupança, se viram, de repente, com grandes dúvidas sobre o que fazer com seu dinheiro. Nos fundos, a cobrança de uma taxa de administração um pouco mais “salgada”, como se diria em outros tempos, pode comer todo o rendimento. CDBs mais atraentes, só de prazos mais longo. E caderneta de poupança, de acordo com as recomendações de qualquer “coaching” financeiro, como se diz nesses tempos, mantém-se como abrigo apenas para quem teme se aventurar por qualquer outra aplicação. Ativos reais? Imóveis? Enfim, uma série de perguntas com respostas não tão óbvias. A escolha entre liquidez, segurança e retorno nunca foi tão essencial como nessa situação.

Do lado de quem recorre a empréstimos, pelo menos por enquanto talvez nem seja o caso de se abalar muito com essa queda. Claro que a lógica diz que um juro básico mais baixo tende a trazer para baixo também as taxas nas operações com pessoas físicas e jurídicas. Mas digamos que essa é uma lógica parcial. Como já se demonstrou à exaustão, a concentração do mercado financeiro mantém nas alturas os juros dos empréstimos e financiamentos. E ainda leva tempo para que fatores como a entrada das fintechs no mercado alterem essa “confortável” posição — evidentemente, confortável apenas para as instituições financeiras.

O fato é que, salvo algum desastre no cenário externo, esse quadro veio para ficar. A combinação de economia estagnada com inflação baixa — no caso do Brasil, duas faces da mesma moeda — praticamente impõe a derrubada dos juros. Ainda mais considerando-se a resistência da equipe econômica a medidas de caráter fiscal.

A expectativa de crescimento para 2019 ano mantém-se em torno de 0,8% e, para 2020, vai de 1,7% até 2%. E, no caso da inflação, o “cenário de mercado” destacado na própria ata do Copom é de uma projeção de 3,3% para o IPCA de 2019 e de 3,6% para 2020, em relação a metas de respectivamente 4,25% e 4% — taxas compatíveis com a manutenção de uma Selic de 5% entre o fim deste ano e o fim do ano que vem. Nos mercados, já aparecem apostas para Selic abaixo de 5%. Pelo visto, a pergunta “E agora?” não vai desaparecer tão cedo.

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