Mal-entendidos e mudanças no discurso sobre programas de governo

Cida Damasco

07 Novembro 2018 | 14h18

Durante a campanha e nos primeiros dias pós-segundo turno, os ruídos provocados por declarações intempestivas de integrantes de seu time levaram Bolsonaro a emitir uma ordem de silêncio a todos — ordem, por sinal, nem sempre acatada. O campeão de inconfidências era o vice, general Hamilton Mourão, que em plena guerra eleitoral atacou o 13º salário, classificando-o de “jabuticaba”.

Pois bem, mal começou a transição, e o próprio Bolsonaro tem ampliado contradições e dúvidas em relação a seu programa de governo. Com a diferença de que não há ninguém para obrigá-lo a se calar. Nesta semana, foram pelo menos três episódios, que só não tiveram maiores consequências, porque o mercado está em plena lua de mel com o presidente eleito. E dá a ele o benefício da dúvida, com argumentos benevolentes do tipo “ele não quis dizer exatamente isso”.

Nesse sentido, é exemplar o que aconteceu com as declarações de Bolsonaro a respeito da dívida pública. Em entrevista à TV Band, o presidente eleito disse que a dívida interna seria renegociada com cuidado. Renegociação, nesse caso, quer dizer, em bom português, calote, ou seja, alongamento de prazos e/ou redução da remuneração dos títulos públicos — que fazem parte das carteiras dos fundos de investimento nos quais parcelas expressivas da população aplicam seu dinheiro. E isso, para um país traumatizado com o bloqueio das poupanças e dos depósitos em conta corrente na estreia do governo Collor.

Alguém duvida que, em outras circunstâncias, os mercados teriam sofrido um abalo no dia seguinte? Não foi o que aconteceu. Mesmo assim, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, teve de vir a público desmentir seu chefe e dizer que Bolsonaro não havia entendido o que ele, Guedes, havia explicado sobre a necessidade de adotar medidas para abater a dívida pública.

O segundo episódio está ligado à reforma da Previdência. Se o objetivo é confundir, parece que está dando resultado. Dia sim, outro também, algum membro da equipe de Bolsonaro faz declarações sobre qual a reforma da Previdência está em estudos e principalmente sobre qual o destino que será dado à proposta do governo Temer.

Guedes e o futuro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, já tiveram bate-boca em público, sobre a conveniência de se aprovar a reforma de Temer antes de encaminhar uma proposta para o futuro. E o que o próprio Bolsonaro tem dito sobre o tema também não tem sido muito esclarecedor. Pouco tempo atrás, chegou a falar que levar adiante a proposta de Temer seria “botar remendo em calça velha”, e agora insiste na necessidade de aprovar o mais rápido possível alguma coisa dessa reforma — apesar das indicações de que será necessário um trabalho e tanto de articulação política para despertar a boa vontade do Congresso.

Por “alguma coisa”, entenda-se, por exemplo, uma idade mínima menor do que os 65 anos da proposta atual, para servidores públicos — lembrando-se que, pouquíssimo tempo atrás, a retórica era de acabar com a “farra dos marajás”. Quanto à mudança do regime de repartição para o de capitalização, para as futuras gerações, preferência confessada de Paulo Guedes, Bolsonaro disse ainda ter “desconfiança”. E os sinais, nesse momento, são de que isso pode mesmo ficar para mais tarde.

Para complicar, o próprio Guedes provocou mal-estar, nesta terça-feira, ao defender uma “prensa” no  Congresso, com o objetivo de apressar a votação. Aí foi a vez de Bolsonaro pôr panos quentes, ao sugerir que o caso é de convencimento, não de prensa.

Dentro dessa linha, o terceiro episódio está ligado à acusação de Bolsonaro de que a pesquisa do IBGE sobre desemprego é uma “farsa” e a metodologia deverá ser alterada no seu governo. Ele citou inclusive, como distorção, a inclusão de todos os beneficiários do Bolsa Família no contingente dos empregados, o que não é correto. IBGE e sindicato de trabalhadores, obviamente, responderam a essa declaração.

Tudo isso sem contar as confusões em torno do “trumpismo caboclo” nas mudança de eixo da política externa — que, antes mesmo da chegada ao poder, já provocaram reações da China e do Egito, dois parceiros comerciais importantes do País.

É até compreensível que o presidente tente controlar discussões públicas de integrantes da equipe sobre temas sensíveis, mas ajudaria muito se ele também contribuísse para o entendimento e enviasse mensagens mais consistentes sobre os planos de governo.