Marielles e Selmas

Cida Damasco

07 Maio 2018 | 15h59

Faz uma semana do desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, ainda há vítimas sob os escombros, entre elas Selma da Silva, mãe de gêmeos de 9 anos, e multiplicam-se as teorias sobre ocupações e sobre as responsabilidades por essa tragédia insistentemente anunciada — e não evitada. Faz quase dois meses da execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, os assassinos e os mandantes ainda não foram oficialmente identificados e a intervenção militar na segurança do Rio patina em meio ao descrédito da população e à continuidade do quadro de violência na cidade.

Dois flashes, não os únicos, mas os mais recentes, do drama social que caracteriza o Brasil das desigualdades e não é enfrentado por políticas públicas consequentes. Pior, sequer estão detalhadas nas mil e uma prioridades apresentadas pelos inúmeros candidatos à Presidência. Tudo o que se fala, nos dias que se seguem a tragédias como essas, é de novos projetos, novas punições, novos recursos e assim por diante — como se os problemas não fossem velhos, não estivessem aí na cara de todos, exigindo providências imediatas.

O desabamento do prédio no Largo do Paissandu expõe, com crueza, as múltiplas facetas da crise da moradia no Brasil. São 6 milhões de famílias, ou 20 milhões de pessoas quem vivem em condições precárias em todo o País. Em contrapartida, são cerca de 7 milhões de imóveis vazios. São 162 movimentos que se abrigam sob o guarda-chuva dos sem teto, com modo de ação e interesses diferentes: só em São Paulo, mais de 200 imóveis, cerca de 70 no centro, estão nessa situação.

Claro que é preciso apurar os culpados em meio ao empurra-empurra de responsabilidades sobre a tragédia da semana passada. Claro também que é preciso averiguar se há e quem são os “infiltrados” nesses movimentos de sem teto. Mas, vamos lá ao essencial: o que é preciso fazer para reduzir de fato a população sem moradia e não apenas para desocupar os imóveis?

Os candidatos à Presidência, que começam a definir seus programas de governo, têm o dever de pôr o foco na questão das moradias populares — que vai além de programas como Minha Casa Minha Vida. Afinal de contas, apenas 8% das 57 mil unidades construídas na cidade de São Paulo desde 2010 pelo Minha Casa Minha Vida foram destinadas às faixas com renda de até 3 salários mínimos. Há aí um hiato a ser preenchido não só com verbas mas também com uma reforma urbana, que revise a utilização dos espaços públicos.

No caso das mortes de Marielle e de Anderson, as investigações vão no caminho de que se trata de mais um crime ligado ás chamadas milícias. Aqueles grupos paramilitares que já tomam conta de 88 comunidades do Rio, mais do que o dobro de oito anos atrás. Já se sabe que as armas foram submetralhadoras, que as câmeras da área foram desligadas pouco antes do crime, que o carro passou por dois bairros antes de chegar ao centro do Rio — mas ainda falta a resposta à pergunta que virou símbolo de manifestações em todo o País e até no exterior, “quem matou Marielle?”. Em encontro com parlamentares, policiais que participam das investigações afirmaram que já dispõem de evidências para chegar aos assassinos. Segundo reportagem exclusiva do jornal O Globo, uma testemunha teria envolvido no crime o miliciano Orlando Oliveira Araújo, ex-PM que está preso em Bangu, e o vereador Marcello Siciliano (PHS).

A intervenção militar no Rio ameaça terminar sem ter feito o mínimo — ou seja, inspirar sensação de segurança à população e temor aos criminosos. Ninguém mais nos arredores do Planalto toca no assunto e, quando aparece alguma crítica a mudanças em outras áreas, principalmente na economia, que não estão caminhando no Congresso, vem o argumento: “com a intervenção no Rio, não dá”. Parece que há interessados em acabar logo com essa “limitação”. Seria interessante que pelo menos os subsídios recolhidos pelos interventores servissem à formulação de propostas efetivas para a segurança pública. Eleitorais, mas não eleitoreiras.