Mercados antecipam comemorações da Previdência

Cida Damasco

10 de julho de 2019 | 20h54

Quem imaginava que o Congresso avalizaria integralmente a reforma da Previdência que estava na cabeça do ministro Paulo Guedes e sua equipe, pode até sentir uma ponta de decepção. Ficaram pelo caminho o regime de capitalização, considerado por eles o ideal para o novo mundo do trabalho, a abrangência dos Estados e municípios — que pode retornar no Senado, via uma PEC paralela — e foram suavizadas algumas regras de transição, entre outros itens. Mudanças naturais, porém, tratando-se de um tema explosivo como a Previdência, que mexe na vida de toda a população e, por isso mesmo, alimenta inflamados debates, especialmente em tempos de polarização ideológica — “vendido” por um lado como o paraíso, e apresentado pelo extremo oposto como o inferno dos trabalhadores fora da ativa.

Não é por acaso que só agora, às vésperas da votação, depois de uma campanha persistente por parte de políticos, empresários e economistas, as pesquisas de opinião tenham finalmente apontado um percentual de apoio à mudança superior à rejeição — 47% a 44%, segundo o instituto Datafolha. O texto básico, sem os destaques, foi aprovado em primeiro turno com 379 votos a favor, 71 além do mínimo necessário, a 131 contra. Uma derrota fragorosa das oposições — até porque as frestas que se abriram no texto foram por iniciativa da própria base aliada.

As primeiras comemorações não ocorreram nas galerias do Congresso. Foi nos mercados que a “festa” começou há algum tempo. E promete continuar. Nesta quarta-feira o dólar caiu à menor cotação desde fevereiro e as bolsas bateram novo recorde, acima dos 105 mil pontos. Com a ajuda de uma inflação abaixo do centro da meta, os juros devem ser os próximos “beneficiados” pelo astral da reforma: a expectativa é de baixa na Selic, embora a resistência das taxas, na ponta do crédito, continue desafiando a “criatividade” dos especialistas.

Bem mais complicado, sem dúvida, é transferir esse clima favorável à atividade econômica: tudo indica que só com alguma “injeção” de ânimo, ou, em outras palavras, com algum dinheiro extra na praça, a economia poderá pelo menos sair da atual paradeira.

No front político, ganham principalmente o Congresso, que tomou a dianteira na pauta econômica, e em particular o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o grande articulador da reforma da Previdência. No final das contas, ganha também o próprio governo Bolsonaro — e não só porque o projeto é criação de seu núcleo econômico.

É fato que, durante um longo período, o presidente se comportou quase como um espectador das negociações da reforma. Só recentemente entrou em campo, e com o “uniforme” inadequado de lobista da categoria dos policiais, para a qual conseguiu condições especiais de aposentadoria, enfraquecendo o discurso de combate aos privilégios embutido na reforma — a propósito, por que os policiais são mais “diferentes” do que, por exemplo, os professores?

Na boca da votação, contudo, foi decisivo o compromisso do Planalto com as “reivindicações” dos parlamentares. Leia-se: distribuição de cargos, liberação de emendas parlamentares, renegociação de dívidas rurais e assim por diante. Tudo em nome de garantir os votos necessários à aprovação da reforma, como se faz no Congresso desde sempre, apesar das tentativas de demonização feitas pelas oposições. Ironicamente, procedimentos típicos da velha política, aquela que Bolsonaro jurou sepultar durante a campanha eleitoral.

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