Montanha-russa

Cida Damasco

27 de junho de 2019 | 17h07

Não é qualquer montanha-russa. Está mais para aquelas atrações dos parques temáticos lá fora, em que os loopings deixam os frequentadores literalmente de cabelo em pé. O primeiro semestre do governo Bolsonaro foi uma sucessão de manobras radicais, subidas e descidas em altíssima velocidade, sempre no limite do perigo. Consequência? No fim do percurso, um País parado. Exatamente como no desembarque das montanhas-russas, em que, passada a emoção dos loopings, os passageiros mal conseguem sair do lugar.

A lenta retomada da atividade econômica, que vinha se arrastando desde o começo de 2017, simplesmente não “pegou” e o que houve, neste primeiro semestre, foi mesmo uma parada. As projeções pessimistas saíram das planilhas de analistas e chegaram às do próprio governo. Prova é que, no relatório de inflação do Banco Central (BC), divulgado nesta quinta-feira, a previsão do PIB para o fechamento do ano foi derrubada de 2% para 0,8% — um pouquinho abaixo inclusive do que consta na pesquisa Focus mais recente (0,87%).  A ata do Copom, relativa à reunião da semana passada, já havia confirmado as expectativas pessimistas, ao destacar a interrupção do processo de retomada e um desempenho do PIB próximo de zero no segundo trimestre.

Finalmente, em estudo também divulgado nesta quinta-feira, o Ipea, órgão ligado ao Ministério de Economia, avaliza a previsão de um PIB de 0,8% neste ano, 1,2 ponto abaixo da registrada no carta de conjuntura de março. E, reforçando a ofensiva pró-reforma da Previdência, o Ipea projeta um crescimento de 2,5% para o ano que vem, apenas 0,5 ponto inferior ao número de março, caso a proposta do Planalto seja aprovada pelo Congresso.

Verdade seja dita. As manobras arriscadas da montanha-russa não aconteceram no circuito fechado da equipe econômica de Bolsonaro. Ao contrário. A turma do ministro Paulo Guedes passou seis meses concentrada na reforma da Previdência, a proposta dos sonhos dos liberais, combinando um rearranjo das contas públicas com um encolhimento do papel do Estado. E só agora começa a anunciar medidas adicionais para aliviar o sufoco, como é o caso da liberação do depósito compulsório nos bancos, que poderá chegar a R$ 100 bilhões “no futuro”, segundo Guedes, num forte estímulo ao crédito — uma semana depois da reunião do Copom que manteve o juro básico em 6,5% ao ano, frustrando quem esperava um corte.

De onde vieram os loopings, então? Indiscutivelmente da área política. Ou seja, das idas e vindas na articulação política do governo Bolsonaro, dos entreveros dos ocupantes do Planalto com o Congresso em torno da proposta para a Previdência e de vários outros projetos, nem sempre prioritários. Diante desse cenário, quem vai com tudo no consumo ou no investimento? É preciso ter muita atração por riscos.

As incertezas dominam o clima empresarial em todos os setores, como mostram as sondagens da Fundação Getúlio Vargas (FGV). É fato que os índices de confiança do comércio e da construção civil tiveram altas em junho, mas ainda insuficientes para compensar baixas anteriores. Além disso, o Índice de Confiança da indústria recuou no mesmo mês, para o nível mais baixo desde outubro do ano passado.

A provável aprovação da reforma da Previdência pode até alterar esse quadro e suavizar o trajeto da montanha- russa, mas o presidente e parte dos integrantes de seu time parecem gostar da adrenalina provocada pelos loopings. A retomada precisa de mais estabilidade.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.