Na economia, um copo meio cheio, meio vazio

Cida Damasco

02 de fevereiro de 2019 | 10h35

Aos poucos, vai se completando o painel de indicadores do estágio alcançado pelo economia brasileira na virada do ano — e na virada de governo. Nenhuma grande surpresa, mas um conjunto de resultados suficiente para sustentar análises divergentes sobre a capacidade de reação da economia.

Para uns, vistos como otimistas de carteirinha, o País está pronto para embarcar num novo ciclo de crescimento, mais sustentável e mais consistente do que os anteriores. Para outros, tidos como pessimistas renitentes, o País continua empacado, com graves problemas na área fiscal e um persistente quadro de desigualdades, e daí não vai sair tão cedo.

Uma observação mais fria, contudo, mostra que, de fato, trata-se de um caso em que vale a figura do “copo meio cheio, meio vazio”. A questão é avaliar o que é preciso fazer, e em quanto tempo, para completar o copo.

Embora o número final do Produto Interno Bruto (PIB) só vá ser divulgado em março, os dados referentes ao comportamento da atividade econômica no último trimestre confirmam um crescimento bem modesto, próximo de 1,5%, típico de uma retomada sem fôlego, depois da saída da recessão, e bem distante das expectativas alimentadas até o começo de 2018.

A produção industrial, por exemplo, cresceu 1.1% o no ano, frente a 2,5% no ano anterior e, em dezembro, mesmo com a natural boa vontade em relação a um novo governo, teve uma queda de 3,6% na mesma base de comparação. Na indústria paulista, o movimento foi parecido: uma alta moderada de 1,2%, depois de um avanço de 3,6% em 2017.

O desemprego, a face mais visível da crise, continua com um ritmo lento de queda. A média no ano ficou em 12,3% da força de trabalho, 0,4 ponto abaixo da registrada no ano anterior. Mas, na realidade, essa taxa significa que, em dezembro, estavam desocupadas 12,2 milhões de pessoas, mais ou menos como se uma cidade inteira de São Paulo estivesse nas ruas em busca de uma colocação.

Mais preocupante ainda é o fato de que apenas um terço dos ocupados tem carteira assinada, ou seja, a grande e imensa maioria mantém ocupações de pior qualidade, como alerta o próprio IBGE. Juntando-se todas as pessoas que poderiam estar trabalhando e não estão, inclusive por falta de ânimo para procurar uma vaga, esse contingente mais do que dobra e vai a 27,5 milhões. Nada mais natural, portanto, que nesse quadro desalentador, a renda continue estagnada.

No terreno fiscal, os dados disponíveis de 2018 também permitem nuances nas interpretações — ainda que seja consensual a necessidade urgente de enfrentar os desequilíbrios das contas públicas. Antes de mais nada, é preciso reconhecer que não houve nenhum desastre, nenhum “shutdown” da administração pública, como se temia. O déficit do setor público consolidado, que exclui a conta de juros, fechou 2018 em R$ 108,3 bilhões, bem abaixo da meta de R$ 161,3 bilhões fixada para o ano — com a “ajuda” providencial do empoçamento de recursos autorizados mas não utilizados, simplesmente por atraso nos projetos.

Mas, além de ser o quinto rombo consecutivo, como costumam falar os economistas, já está “contratado” um agravamento dessa situação, se não forem adotadas providências mais drásticas. Em outras palavras, se não for encaminhada a reforma da Previdência — afinal, o rombo específico do setor previdenciário atingiu o nível recorde de R$ 290 bilhões, incluindo as contas dos trabalhadores do setor privado no regime do INSS, dos servidores da União e dos militares.

Isso não quer dizer que “amanhã” os aposentados terão seus vencimentos ameaçados, mas é indiscutível que o Orçamento da União ficará cada vez mais amarrado aos gastos previdenciários, com efeitos danosos sobre outras despesas. Cada vez que se mergulha na planilha da União — a exemplo do que se fez nos últimos dias, depois da tragédia de Brumadinho, com gastos do Meio Ambiente e do Ibama — fica evidente o grau de engessamento do governo.

São duas as perguntas de um milhão de dólares, no momento, e estão diretamente ligadas. Vai dar para acelerar o crescimento? Vai dar para estabelecer um padrão de reequilíbrio das contas públicas? É claro, para a maioria dos observadores, que está nas mãos da equipe econômica a formatação de um programa econômico consistente e viável — e os números dos mercados vêm mostrando que, apesar dos desencontros iniciais e de um certo atraso na apresentação de medidas, a equipe dispõe de um polpudo crédito de confiança.

Agora, porém, é a vez de os responsáveis pela articulação política também mostrarem serviço. As eleições para os novos comandos do Senado e da Câmara são a primeira mostra de com quem o governo pode contar para encaminhar sua agenda econômica. Sem isso, o copo pode até esvaziar antes de ficar completamente cheio.