Na economia, um semestre que mudou o ano

Cida Damasco

04 Julho 2018 | 16h44

E não é que já estamos na metade do ano? Não se trata apenas daquela conversa de elevador ou de sala de espera de médico. Na economia, essa observação indica que, de fato, já “perdemos” meio ano. E o restante será engolido pela campanha eleitoral, assim que a bola deixar de rolar nos gramados da Rússia.

O balanço do primeiro semestre de 2018, de fato, não tem nada de animador. Muito ao contrário. A atividade econômica, que já estava empacada, sucumbiu à parada dos caminhoneiros e ainda não se recuperou. Os números relativos à produção industrial de maio, com recordes de baixa na faixa dos 10%, impressionam e, mesmo descontando-se o fato de que são pontos fora da curva, é inegável que estão reforçando a tendência de revisão dos prognósticos para o crescimento do PIB no ano, hoje já encostando em 1%. Nesse cenário, o desemprego mantêm a tendência de queda lenta e está em 12,7% da força de trabalho, ou o correspondente a 13,2 milhões de pessoas sem ocupação.

Os mercados, que atravessaram longo período de bonança, agora balançam sob efeito da guerra comercial de Trump e, internamente, em razão das incertezas sobre o cenário político. No fechamento do semestre, o dólar subiu quase 17% e a bolsa caiu 4,8%, refletindo as desconfianças dos investidores quanto ao retorno oferecido pelos mercados dos países emergentes e, mais ainda do Brasil.

Até a inflação, há tanto tempo bem comportada, sofreu impacto da crise transitória de desabastecimento e agora ainda leva a pancada do aumento das tarifas de energia elétrica — O IPCA 15, prévia do IPCA, terminou o semestre em 2,5% e chegou a 3,68% em 12 meses, levando as previsões da taxa de 2018 para pouco além dos 4%, embora ainda abaixo da meta oficial de 4,5%.

Diante dessa visível mudança no desempenho dos grandes indicadores econômicos, retratada no balanço do semestre, analistas e consultores apressam-se a rever as estimativas para o fim do ano. E para pior. Em resumo, produziu-se neste primeiro semestre uma reversão das expectativas para 2018.

Na visão dos mais otimistas, o ano representaria uma transição para uma retomada mais firme da atividade econômica, que ganharia ou não velocidade a depender do futuro das reformas, principalmente da Previdência. Mas, pelo que se vê, o que poderia ser um legado para o próximo presidente transformou-se numa carga, complicando ainda mais a vida dos candidatos à sucessão de Temer.

Certamente o eleitorado está à espera de alguma promessa de melhora concreta no seu dia a dia, ou seja, em termos de emprego e renda. E para já, não para o longo prazo. Se não quiserem repetir o estelionato eleitoral de 2014, os candidatos terão de falar sério sobre os ajustes a serem feitos na economia, com o objetivo de impedir o colapso das finanças públicas mais à frente. Equilibrar-se entre esses dois pontos não é tarefa para marqueteiros, mas também não pode ficar restrita a técnicos. É para políticos com P maiúsculo, apesar de toda a rejeição que a classe desperta na população.