Nas campanhas, aberta a temporada do “não é bem assim”

Cida Damasco

10 Outubro 2018 | 12h53

No dia seguinte do primeiro turno das eleições, os dois candidatos — Jair Bolsonaro e Fernando Haddad — trataram de pôr a bola no chão e recomeçaram o jogo. Os dois recuaram na proposta de convocação de uma Constituinte e desautorizaram declarações de aliados importantes. No caso de Haddad, o ex-ministro e líder petista José Dirceu e, no caso de Bolsonaro, bem mais significativo, o próprio vice, general Hamilton Mourão. Em tese um bom começo, para quem quer desfazer más impressões principalmente entre os eleitores que pretendem conquistar.

A ansiedade do eleitorado por  definições, contudo, vai mais longe. Na economia, por exemplo, a expectativa diz respeito não só a um detalhamento dos programas de governo como também das equipes que vão tocá-los. Afinal de contas, uma coisa dá pistas da outra.

Para Bolsonaro, trata-se de deixar claro se, afinal, as ideias divulgadas pelo seu guru econômico, Paulo Guedes, serão de fato abraçadas pelo próprio candidato.  No caso de Haddad, talvez o sinal mais importante — e cobrado por empresários e pelos mercados — seja a indicação do principal formulador da política econômica, o que o comando da campanha resiste em fazer.

Dentro do programa de governo, a principal dúvida refere-se ao “grau” de reformismo dos pretendentes ao governo. E, nesse caso, a temporada do “não é bem assim” veio do lado de Bolsonaro, justamente o candidato tido como reformista de carteirinha. Pelo comportamento da Bolsa nesta quarta-feira, parece que os mercados entenderam o recado.

Depois da euforia de vários pregões, a Bolsa está em baixa e o dólar em alta, movimento atribuído a recuos do candidato do PSL em relação à reforma da Previdência e à privatização. No caso da reforma da Previdência, havia uma expectativa de que Bolsonaro apoiaria a proposta de Temer. Mais ainda: por essas especulações, ele estaria disposto a fechar um acordo com Temer, que encaminharia a  proposta para votação ainda neste ano, antes da posse do novo presidente e também do novo Congresso — facilitando, assim, a vida do futuro ocupante do Planalto.

Nesta terça-feira, porém, o próprio Bolsonaro deu sinais de que é favor, sim, de uma reforma da Previdência, mas a sua própria, e não a de Temer — o que significa, entre outras coisas, que a hipótese de tramitação da reforma nesse período de transição está descartada. A nova “palavra de ordem” foi confirmada em várias conversas pelo principal operador político de Bolsonaro e provável ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), no caso da vitória do candidato.

Na mesma linha de “revisão” de propostas, Bolsonaro, que durante a campanha de primeiro turno passou a impressão de que promoveria um verdadeiro festival de privatizações e concessões, agora se mostra mais reticente em relação à venda da Eletrobrás – especialmente da área geração de energia elétrica. Haddad, por sua vez, continua insistindo na prioridade á reforma tributária e à reforma bancária, com o objetivo de baixar os juros na ponta, embora já admita estudos sobre idades mínimas diferenciadas para aposentadorias.

Como se sabe. o tempo para acordos e alianças antes do segundo turno é curto. E os candidatos têm de correr para fazer “acertos” em programas que nem haviam sido suficientemente detalhados. Mas, escolados pelo que aconteceu em outras eleições, analistas políticos e econômicos já se perguntam se os “novo” programas de governo serão para valer ou apenas “revistos e ampliados” para ganhar as eleições.