No fio da navalha

Cida Damasco

22 Julho 2016 | 20h14

 

Que a equipe econômica de Temer não teria vida mansa para combinar ajuste fiscal com algum incentivo ao crescimento, ninguém duvidava. Nem os otimistas mais exagerados. Mas as dificuldades podem ser maiores do que se esperava.

O Ministério do Planejamento anunciou nesta sexta-feira, em seu relatório bimestral de avaliação de receitas e despesas, que o governo vai usar R$ 16,5 bilhões dos R$ 18,1 bilhões em reservas destinadas a cobrir os chamados riscos fiscais. Em bom português, na metade do ano já ficou claro que será preciso lançar mão daquele “dinheirinho” que havia sido separado para emergências.

A justificativa principal para essa decisão é clara: uma frustração de receitas prevista para R$ 10,8 bilhões. Ou seja, o clima de otimismo moderado em relação ao desempenho da economia ainda não se refletiu numa reação efetiva das atividades do setor produtivo, a ponto de garantir um substancial reforço da arrecadação — e, com isso, aliviar o corte de gastos necessário para o fechamento das contas.

Se não fosse esse expediente de recorrer às reservas, o governo seria obrigado a impor novo contingenciamento (bloqueio) de despesas, jogando para a frente qualquer iniciativa mais robusta de reanimar a economia. Ou então se arriscaria a, mais uma vez, descumprir a meta de déficit fiscal, fixada para o ano em R$ 170,5 bilhões, o que seria um golpe na credibilidade da equipe econômica.

É claro que as declarações oficiais vão de novo na linha do “já estava tudo na conta”. Assim como já estavam na conta os reajustes dos servidores do Judiciário, servidores do Senado, auditores fiscais e outras medidas para acomodar pressões de setores corporativos/políticos. O argumento é que as tais reservas fiscais foram criadas justamente para absorver os riscos fiscais.

É tudo verdade. Mas também é verdade que a principal batalha da equipe econômica está sendo travada exatamente no front político.  E sabe-se que aí nem sempre a vitória é da razão.