O estrago já foi feito

Cida Damasco

16 de abril de 2019 | 20h25

Quatro dias depois da desastrada intervenção na política de preços dos combustíveis e dezenas de bilhões de reais a menos no valor de mercado da Petrobrás, o governo anunciou um pacote de bondades para tentar evitar uma nova greve dos caminhoneiros. No geral, foram liberados R$ 500 milhões em crédito no BNDES para caminhoneiros autônomos e R$ 2 bilhões em obras de melhoria nas estradas. Sobre a suspensão do reajuste do diesel, “a pedido” de Bolsonaro, muitas frases de efeito e malabarismos verbais, para garantir que à Petrobrás caberá decidir se e quando haverá a correção dos preços.

As  bondades foram enumeradas em entrevista com a presença de quatro ministros. O compromisso de não-intervenção na política de preços da Petrobrás foi transmitido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, depois de uma reunião com Bolsonaro. Tudo para passar uma imagem de decisões colegiadas, em contraponto às intempestivas ações do presidente,  que têm assustado empresários, executivos e investidores.

Claríssimo que a preocupação de Bolsonaro e sua turma com o risco de uma nova greve dos caminhoneiros faz todo sentido. Afinal de contas, são mais do que conhecidos os estragos provocados na atividade econômica pela paralisação ocorrida no ano passado. Além disso, o presidente tem uma posição incômoda no momento, já que, como candidato, foi apoiador de primeira hora do movimento dos caminhoneiros — cuja mobilização, via redes sociais, surpreendeu os observadores e antecipou a estratégia bolsonarista na campanha eleitoral.

Embora ainda faltem detalhes das medidas, — como os juros que serão cobrados nos empréstimos do BNDES, por exemplo –, parece que, pelo menos no primeiro momento, elas não conseguirão conter a insatisfação da categoria. As manifestações nas redes sociais são, em geral, de que o pacote foi tímido, quase uma “esmola” e a ameaça de greve continua na pauta dos caminhoneiros. Em resumo, o governo está arriscado a amargar o desgaste por ceder às pressões da categoria  e, mesmo assim, não conseguir desfazer as ameaças de greve e/ou outras manifestações.

O canetaço que suspendeu o aumento do diesel, mesmo que seja revertido, produziu um estresse que não será totalmente superado. É difícil que os mercados recuperem a confiança integral no “Bolsonaro liberal”, depois do escorregão da última semana. Por mais que se argumente que a Petrobrás não é uma empresa como outra qualquer — e não é mesmo — e que o presidente da República precisa ter informações mais detalhadas sobre as razões do reajuste de preços nesse momento, o mínimo que ele teria de fazer seria consultar o superministro da Economia. Que, por sinal, não parece tão “super” como se dizia. Toma conta de um latifúndio, mas não foi ouvido pelo presidente numa questão crucial para o plantio.