O susto da inflação de setembro

Cida Damasco

05 Outubro 2018 | 16h42

A divulgação do IPCA de 0,48% em setembro acendeu uma luz amarela — ainda que em tom claro — em relação às perspectivas para a inflação. Acostumados a uma inflação mansa há vários meses, alguns analistas começam a avaliar a hipótese de uma considerável elevação das taxas nos próximos meses. E chegam a questionar se o Banco Central já não deveria atuar com mais firmeza para espantar esse risco.

Afinal, trata-se da maior taxa para o mês de setembro desde 2015 e foi determinada principalmente pelo comportamento dos preços de combustíveis e passagens aéreas. Os dois sob pressão cerrada da alta das cotações internacionais do petróleo e do dólar.

É claro que as expectativas tanto para o fechamento deste ano como para 2019 ainda são favoráveis, próximas do centro da meta — 4,5% em 2018, com tolerância de 1,5 ponto para cima e 1,5 ponto para baixo, e 4,25% no ano que vem, com intervalo de 2,75% a 5,75%. Para 2018, a pesquisa Focus do BC aponta uma estimativa de IPCA de 4,3% e, para 2019, de 4,2%. Mas, pela primeira vez desde março de 2017, a taxa acumulada em 12 meses superou o centro da meta, ainda que levemente (4,53%).

É sempre bom descontar eventuais exageros nas avaliações desses e de outros números, principalmente num momento de hipersensibilidade aos cenários políticos projetados para a pós-eleição — e, por tabela, aos cenários econômicos. Em certa medida, poderia estar ocorrendo agora o que já havia ocorrido com a inflação da parada dos caminhoneiros, em junho (1,26%), quando uma explosão de preços por crise de abastecimento chegou a ser confundida com uma tendência. Aliás, o IBGE faz questão de destacar que a alta de setembro também foi pontual.

Tudo isso ponderado, o que se pode dizer é que ficou para trás o tempo de inflação “excessivamente” baixa. Há um consenso de que o repasse da alta do dólar para o conjunto de preços só não é mais acentuado e mais generalizado em razão da fraca atividade econômica e seus reflexos negativos no mercado de trabalho.