Os juros na vida real

Cida Damasco

26 de julho de 2019 | 17h50

Não se trata exatamente da volta da chamada Tensão Pré-Copom (TPC), que contaminou os mercados em vários momentos dos governos Lula e Dilma. Naqueles idos, a pergunta recorrente costumava ser uma só: Será que desta vez a taxa Selic vai cair? Mas, guardadas as devidas proporções, há uma certa retomada das especulações em relação às decisões do Copom, a começar com as da próxima reunião, marcada para esta semana.

A maioria das apostas já aponta para um corte de 0,5 ponto percentual agora e de um total de 1 a 1,25 ponto, numa mini-rodada de reduções da Selic — já incorporadas nas oscilações dos juros futuros. O fato é que, depois de algum tempo, o assunto “juros” retoma o protagonismo na política econômica de curto prazo. O debate agora é sobre a potência dessa ofensiva para o estímulo ao consumo.

É verdade que parece indefensável manter a taxa básica nos níveis atuais, diante da estagnação da economia. Mas um exame detalhado da evolução dos juros na vida real induz a um certo ceticismo em relação a esse papel da política monetária. Segundo levantamento do Banco Central (BC) divulgado nesta sexta-feira, as taxas médias do chamado crédito livre caíram de 38,5% para 38,3% ao ano, de maio para junho — em 12 meses, a variação também foi de 0,2 ponto percentual para baixo. Mesmo assim, correspondem a mais de 6 vezes a taxa Selic, de 6,5% ao ano. Essa pequena queda mensal foi influenciada pelo crédito às empresas, já que para pessoas físicas houve alta no período — nos dois ramos, as médias são de respectivamente 18,7% e 53,2% ao ano.

Só para dar uma dimensão de como os juros do dia-a-dia resistem nas alturas, no cheque especial as taxas estão em níveis absurdos de 322% ao ano e, no cartão de crédito rotativo, em 277%. Desnecessário recorrer ao “antes e depois” para comprovar que o declínio vertiginoso da Selic não foi acompanhado pelo movimento das taxas observadas no mercado.  O spread dos juros, que aumentou de maio para junho,  para 19,6 ponto percentual, parece imune aos vários ataques desferidos pelo BC — sob a proteção, como já se sabe, da concentração bancária.

O roteiro da próxima reunião do Copom está pronto. Todos comemorando a redução da Selic, em nome da reanimação da atividade econômica. E todos reconhecendo também que esse efeito será bastante limitado, enquanto não se conseguir desinflar o spread bancário.

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