Pane seca

Cida Damasco

30 Maio 2018 | 12h21

Um tiquinho acima da média das expectativas recentes do mercado e no meio do caminho das previsões feitas no começo do ano. Esse é o resumo do PIB do primeiro trimestre, que cresceu 0,4% sobre os três meses anteriores e 1,2% sobre o mesmo período do ano passado. Sem contar os resultados específicos de inúmeros setores, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-BR, com um recuo de 0,13%, já havia dado o alerta de que não viria uma notícia animadora.

A divulgação do crescimento de 0,4% coincide com os estertores da greve dos caminhoneiros e o primeiro dia da paralisação dos petroleiros — arrastando a crise monumental de abastecimento, que já faz bambear a economia, até pouco tempo atrás o pilar no qual se sustentava o governo, e chega a despertar dúvidas sobre as condições de sobrevivência de Temer no cargo nos sete meses que restam do mandato. Assim como não é pelos R$ 0,46 a menos no diesel que as manifestações se alastraram, não é exatamente o crescimento abaixo de 0,5% que aprofunda o desalento, mas é o reconhecimento de que a retomada, que empacou no começo do ano, não tem chance de voltar a ganhar ritmo.

Na cabeça de quem acreditava na aceleração da atividade econômica, havia um roteiro claro. Estímulos não ortodoxos ao consumo, como a liberação dos saques das contas inativas do FGTS, dariam o empurrão inicial à retomada. Em seguida, a derrubada da inflação, a ampliação do crédito, o corte dos juros e a consequente melhora no emprego garantiriam impulso a esse processo.

Não se pode dizer que esses fatores não tenham atuado, mas eles exibiram uma tração muito menor do que se esperava. Mesmo os juros básicos em recorde de baixa e a inflação no nível do chão produziram efeitos limitados. Até porque as taxas cobradas na ponta dos empréstimos e financiamentos continuam nas alturas. E a alta de preços de alguns itens específicos, como os combustíveis, pelo menos aos olhos de uma parcela da população torna quase fictícia a queda da inflação. Quanto ao desemprego, que vinha dando sinais de alívio com base na informalidade, resiste em níveis preocupantes: embora tenha passado de 13,1% para 12,9% da força de trabalho, do trimestre terminado em março para o encerrado em abril, ainda significa, em termos absolutos, 13,4 milhões de pessoas sem ocupação espalhadas pelo País.

De novo, o que garantiu o resultado do primeiro trimestre foi a agropecuária, com um avanço de 1,4%. Indústria e serviços ficaram praticamente estacionados. Porém, pior do que a constatação de que o roteiro de aceleração do crescimento não funcionou são as dúvidas sobre o alcance dessa paradeira de maio/junho. É cedo ainda para se avaliar os estragos da crise de abastecimento na atividade de vários setores da cadeia produtiva. E também no ânimo dos consumidores. Sobre investimento, então, nem é bom falar. No primeiro trimestre, a marcha do investimento já havia perdido velocidade: ficou em apenas 0,6%, depois de 2,1% no trimestre anterior, na contramão das variações de 0,1% para 0,5% registradas no consumo das famílias.

Mesmo sem clareza do que irá sobrar para a economia da atual crise de abastecimento e com incertezas sobre o início de uma onda de pressões setoriais sobre o governo, os analistas já estão reduzindo suas estimativas de crescimento do PIB de 2018 de 2,5% para mais perto de 2%. No Planalto, a torcida não é mais para que a economia ganhe fôlego e influa na sucessão, mas para que ela não acentue a desestabilização do governo. Ou seja, a corrida é para conseguir rodar até as eleições sem sofrer uma pane seca no caminho.