PIB mostra paradeira da economia e joga pressão sobre futuro governo

Cida Damasco

31 Agosto 2018 | 10h50

Nem era preciso recorrer aos números do PIB para comprovar a paradeira da economia brasileira. Está à vista de todos a interrupção da trajetória de retomada, que prometia se consolidar ao longo de 2018 e acabou frustrando as projeções. O modestíssimo crescimento de 0,2% segundo trimestre, divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira, 31 de agosto, só dá a dimensão do quadro de estagnação que caracteriza a atividade econômica em 2018, qualquer que seja o ângulo da avaliação.

Pelo lado da oferta, só o setor de serviços entrou no azul, com 0,3% — agropecuária ficou no zero a zero e indústria caiu 0,6%. Pelo lado da demanda, o consumo das famílias teve uma pequena variação positiva, de 0,1%, e os investimentos, determinantes para o futuro da economia, amargaram uma queda de 1,8%.

Para reforçar as preocupações, já passado o impacto da parada dos caminhoneiros, alguns indicadores de julho vão na mesma direção. O principal é o Indicador de Nível de Atividade da Indústria paulista (INA), medido pela Fiesp, que teve um recuo de 2,2% em relação a junho, já descontados os efeitos sazonais. Há também a demanda por crédito ao consumidor, monitorada pela Boa Vista/SPC, que caiu 1,1% pela mesma base de comparação. E o número de empresas inadimplentes, estável na passagem de junho para julho, mas com um aumento de 9,4% sobre o mesmo mês de 2017 — a terceira alta seguida, de acordo com a Confederação Nacional dos Diretores Lojistas/SPC.  Por onde se observe, vai se  firmando a projeção de um anêmico crescimento do PIB nas vizinhanças de 1% para o fechamento deste ano.

Mais que clarear o cenário da economia em 2018, no entanto, esse conjunto de números põe pressão sobre o futuro presidente, que terá pela frente, a partir de 2019, uma agenda de rearranjo das contas públicas, mas não poderá deixar de lado as urgências em termos de recuperação do crescimento e, em consequência, de reativação dos empregos.

É fato que as duas coisas estão ligadas, e há praticamente um consenso de que, sem ajuste fiscal, não há chance de crescimento consistente e duradouro. Mas ajuste a ferro e fogo, que sacrifique os chamados gastos sociais, não combina nem com os desejos nem com as necessidades da população — leia-se, do eleitorado. O alívio no desemprego, que ainda atinge 12,86 milhões de pessoas em todo o País, aparece no topo das prioridades dos cidadãos.

Diante disso, o que se pergunta agora é o que os candidatos da Presidência planejam fazer para tirar a economia brasileira desse atoleiro. A julgar pelos programas econômicos já anunciados, a conclusão é que os candidatos se equilibram entre duas grandes linhas de atuação. A primeira, que se pode classificar como liberal “de raiz”, concentra-se na correção dos desajustes fiscais, principalmente na reforma da Previdência, que mais à frente resultarão na retomada efetiva do crescimento. A segunda também reconhece a necessidade da busca do equilíbrio fiscal, inclusive via mudanças na Previdência, mas defende também algumas medidas específicas de estímulo ao crescimento, em condições de produzir resultados num prazo mais curto.

No receituário dos candidatos, há de tudo um pouco para atingir esse objetivo, como a reativação de obras públicas paradas. Sempre com base preferencialmente no “corte cirúrgico” de gastos. O nó da questão é que esse corte cirúrgico não recai sobre folha de pagamento do pessoal, sempre sob ameaça  de sobrecarga pelos lobbies de servidores, e sobre a Previdência. Enfim, sobre aquilo que pesa realmente no Orçamento. Conclusão: tudo indica que vai sobrar de novo para o investimento e, em consequência, para o crescimento.