PIB do trimestre supera previsão. Mas retomada ainda está distante

Cida Damasco

29 de agosto de 2019 | 09h44

Um pouco acima, um pouco abaixo de zero. Todas as apostas do PIB do segundo trimestre situavam-se nesse intervalo. E o grande temor era a repetição de um resultado negativo, que poria a economia brasileira na situação de “recessão técnica”. Como se um desempenho levemente negativo fosse muito diferente de um levemente positivo. Serve para alimentar a polarização nas redes sociais, o bate-boca de políticos e até alguns debates acadêmicos. Mas é só isso.

Embora tenha ficado pouco acima das previsões, o crescimento de 0,4% sobre o trimestre anterior confirma a estagnação da economia brasileira. E não é suficiente para derrubar as projeções nas vizinhanças de 0,8% para o fechamento do ano. O consumo das famílias registrou uma alta de apenas 0,3% no período. E os investimentos avançaram 3,2.% — mas ainda estão em 15,9% do PIB,  nível quase anêmico para o tamanho das necessidades de investimento do País. Além disso, as variações de 1% do PIB do trimestre e de 0,7% no semestre, sobre igual período de 2018, resultam também da base de comparação fraca, em razão dos efeitos da parada dos caminhoneiros no desempenho da economia.

Mais para frente, vai aparecer o efeito da liberação das contas do FGTS e do PIS-Pasep, dizem os mais otimistas. Mas também vai se manifestar o impacto da crise argentina e da desaceleração da economia mundial, que pode se transformar em recessão, contrapõem-se os mais céticos. Elas por elas, o saldo é de uma economia parada, perto da linha do zero. E a pergunta inevitável, que vem logo a seguir, é uma só: Como o governo teria de se mexer, diante desse quadro?

Não se pode dizer que as tropas de Paulo Guedes estejam paradas. Garantida a aprovação da reforma da Previdência, a equipe econômica foi tomada de um surto de ativismo, como uma resposta à impaciência generalizada de especialistas e não-especialistas. Começou a formatar uma proposta de reforma tributária, ensaiou uma discussão sobre mudanças no pacto federativo e anunciou um pacotinho de privatizações. Sem contar a definição de novas regras para saques das contas do FGTS e do PIS-Pasep. Em alguns casos, porém, com uma aparência de improviso, o que acaba provocando uma certa frustração.

A proposta de reforma tributária, por exemplo, prometida para a semana passada, ainda não saiu e corre o risco de se transformar num tudo ou nada em torno de uma reabilitação da CPMF — que já está sob forte ataque. A lista de empresas a serem privatizadas também causou alguma decepção. Reação parecida com a provocada pela liberação das contas do FGTS e do PIS-Pasep.

A grande questão é se esse “meio ativismo” é suficiente. Para vários analistas, a solução é acelerar as mudanças estruturais e resistir à tentação de adotar medidas heroicas para estimular o consumo — que, a seu ver, teriam prazo de validade e poderiam agravar os desajustes fiscais mais adiante. Para outros, porém, incluindo não filiados ao “partido” dos heterodoxos, é urgente providenciar algum estímulo à demanda. Fala-se abertamente até em algum impulso fiscal para garantir investimentos, mesmo que à custa de flexibilização nos controles.

O desemprego, o subemprego e o desalento, que seguem afetando um quarto da força de trabalho do País, e o endividamento dos consumidores mostram os obstáculos para se chegar a esse objetivo, pelo lado do consumo das famílias.  Mesmo a necessária queda do juro básico tem seu impacto limitado pela mais do que comprovada resistência das taxas na ponta do crédito — que se sustentam nas alturas.

Sinal inequívoco de que nem a primeira nem a segunda turma confiam que suas receitas serão capazes para acelerar o ritmo da economia a curto prazo é a revisão de projeções que já corre os mercados para os próximos anos. A retomada, que muitos viam no cenário de 2020, já foi adiada para 2021.

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