Piora de indicadores econômicos é pontual. Será?

Cida Damasco

28 Junho 2018 | 16h29

Passados dois meses da parada dos caminhoneiros, os indicadores de inflação e atividade econômica começam a quantificar os estragos provocados pela crise de desabastecimento. O IPC-15 de junho, de 1,11%, atingiu o nível mais elevado para o mês desde 1995 e o maior desde fevereiro de 2016, o IGPM chegou a 1,87%, o mais alto desde outubro de 2015. A produção industrial, segundo o Ipea, teve em maio o pior mês da história, com uma queda de 13,4% sobre abril. Tudo culpa da greve dos caminhoneiros.

A questão central, agora, é separar o que é resultado pontual do que é tendência. O próprio Banco Central revelou suas incertezas na ata do Copom referente à última reunião, que manteve a taxa básica de juros, a Selic, em 6,5% ao ano. Contrariando suas próprias diretrizes, o BC esquivou-se de dar sinais da política monetária que vem pela frente.

Claro que é pontual a disparada de preços de alguns itens durante a parada dos caminhoneiros. É o caso, por exemplo, do aumento de 40% nos preços da batata registrado no IPCA-15 de junho. Trata-se da exceção das exceções. Não se espera nada parecido para os próximos meses. Há dúvidas, porém, sobre a velocidade em que essas pressões serão esvaziadas. Assim como atividade econômica fraca não combina com repasse de alta de preços — e, para muitos, é principalmente isso que explica hoje a permanência da inflação em níveis confortáveis –, cenário de incertezas políticas também não combina com estabilidade nos mercados e, em consequência, na economia como um todo. Elas por elas, a tendência parece ser de inflação ainda baixa, inferior à meta de 4,5% estipulada para o ano, mas com risco de novos sobressaltos.

Em relação à atividade econômica, há menos incertezas, Infelizmente. Não está no radar dos analistas a repetição de uma queda na produção industrial tão forte como a calculada pelo Ipea para o mês de maio. Mas também ninguém conta mais com uma “retomada da retomada”, nos moldes em que ela vinha ocorrendo no ano passado. Com algum atraso, o governo rebaixou a estimativa do crescimento do PIB em 2018 para 1,6% — quase empatada com a apontada pela pesquisa Focus desta semana (1,55%). E, mesmo assim, há quem aposte num resultado ainda mais modesto.

Tudo indica que a crise provocada pela parada dos caminhoneiros apenas expôs e amplificou as vulnerabilidades do quadro econômico. Principalmente as dificuldades enfrentadas pelo governo para levar adiante sua agenda econômica — ou melhor, para levar adiante qualquer agenda econômica. Como é natural em todo fim de mandato, as cartas, agora, estão à espera do sucessor de Temer. Só que, desta vez, a pouco mais de três meses das eleições, a disputa continua aberta. A economia, enquanto isso, na melhor das hipóteses continuará andando de lado e tentando resistir a eventuais solavancos na inflação.