Plano Collor: um “disaster movie” no Planalto

Cida Damasco

28 de novembro de 2017 | 16h46

Lendo hoje sobre o acordo entre bancos e poupadores em torno das perdas sofridas com os planos econômicos, me vi transportada a um filme. Um “disaster movie”, como dizem os críticos: 16 de março de 1990, o dia seguinte da posse de Fernando Collor na Presidência da República. O dia em que foi anunciado o Plano Collor, ou melhor, o dia em que o Plano Collor caiu como um terremoto sobre o País. Eu estava lá, uma das centenas de jornalistas que lotavam o auditório no Planalto, sexta-feira à tarde, com toda a equipe econômica sentada a uma mesa para explicar o plano.

A então toda-poderosa ministra Zélia Cardoso de Mello, com um bem cortado traje de executiva, como era seu estilo, tentava detalhar as medidas. Friamente, com requintes de economês. Zélia falava, falava, mas todos só “ouviam” uma coisa: todo dinheiro acima de 50 mil cruzados novos, depositado em conta corrente ou nas poupanças, a partir daí estaria bloqueado por 18 meses. “Simples” assim.

Deixo para os especialistas um debate sobre a situação da economia na época, sobre os pilares teóricos que sustentavam o plano, sobre as razões específicas do seu fracasso, sobre as perdas reais impostas aos investidores e assim por diante. Esse debate foi conduzido à exaustão nos 27 anos que separam o Brasil do Plano Collor e o Brasil da inflação de 3% no ano.

Só quero reconstituir as cenas dos dias que antecederam aquele 16 de março e principalmente a cena daquela inesquecível tarde de verão. Os jornalistas tentavam antecipar a “revelação” e descobrir os segredos guardados na casa da praça Morungaba, nos Jardins, onde a equipe de Zélia se reunia sistematicamente. Ora as especulações – ou “palpites”, é bom reconhecer — eram sobre novas regras para congelamento de preços: depois do Cruzado, congelamento virou sinônimo de plano econômico. Ora eram sobre o corte de zeros da moeda. Como corte de três zeros não fazia sentido, multiplicavam-se as apostas sobre o número de zeros que seriam abatidos. O segredo do bloqueio, mesmo, só foi desvendado naquele dia.

É conhecida a história de que Zélia chamou a Brasília alguns economistas mais próximos, na véspera do anúncio do plano, para antecipar o que viria. Um deles contou a um grupo de jornalistas, logo depois, que voltando de Brasília na manhã da sexta-feira, olhou para São Paulo da janela do avião, com a seguinte reflexão: “as pessoas estão saindo de casa, indo trabalhar e nem sabem que o mundo vai cair daqui a pouco”. E ele estava coberto de razão. O mundo caiu mesmo.

Naquele auditório de Brasília, teve de tudo na tumultuadíssima entrevista da equipe econômica. Lá pelas tantas, Zélia ordenou que o economista Antonio Kandir, conhecido pelo didatismo, substituísse o então presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, nas explicações sobre o plano – como se o sotaque de Eris, brasileiro nascido na Turquia, fosse o único problema para a compreensão do que estava sendo dito ali!

Verdade seja dita, atordoados com o impacto das medidas na vida das pessoas, os jornalistas também não contribuíam para o esclarecimento das dúvidas: tentavam manter o chamado “distanciamento crítico” da notícia, mas obviamente sem conseguir. Para completar, encarnando a figura da professora, Zélia recomendou que todos os presentes pegassem um resumo do plano, à saída do auditório, e voltassem no dia seguinte para mais esclarecimentos. Como se isso fosse possível! E olhe que não eram tempos de internet e redes sociais. Claro que a recomendação da “professora” Zélia não funcionou.

O tumulto continuou por vários dias. Houve jornalista entrando ao vivo na TV para falar que a cada salário, só os tais 50 mil cairiam na conta do trabalhador e o restante ficaria bloqueado. Houve gente rapidamente arrumando um jeitinho de liberar alguns recursos fora do esquema pré-concebido pela equipe econômica – eram as tais “torneirinhas”, no início restritas a pouquíssimas situações e aos poucos ampliadas. E muito mais. Por muito tempo.

O Plano Collor ruiu, vieram outros planos, outras coberturas, mas essa, pelo menos na minha trajetória profissional, é histórica. Decididamente, o Brasil pode não ser para os amadores. Mas que eles tentam, tentam…

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