Política e economia, uma união sempre instável

Cida Damasco

30 de outubro de 2018 | 17h57

Mal começou a transição, e já ficou claro que há dois “partidos” na equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro em relação à reforma da Previdência. Uns querem aproveitar esse período para se entender com a equipe do presidente Michel Temer e com líderes parlamentares e pôr para votar a proposta de mudanças na aposentadoria formatada pelo atual governo — deixando para depois uma segunda etapa, destinada a criar um novo regime para as futuras gerações. Outros, capitaneados pelo futuro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), preferem começar do zero, no ano que vem, com uma proposta própria, que mire o longo prazo.

Claro que divergências em torno da Previdência não são novidade. Basta ver que o tema frequentou a lista de prioridades de Temer durante todo o mandato e, apesar da torcida de empresários e dos mercados, acabou sendo arquivada. Num País praticamente conflagrado pela polarização da campanha eleitoral, era impossível mesmo discutir com cabeça fria esse tema — essencial para impedir o colapso das finanças públicas, mas que mexe,  e muito, com as perspectivas de vida de toda a população. Leia-se o eleitorado. Por isso mesmo, técnicos e políticos nem sempre têm visões coincidentes sobre os problemas nesse campo — e muito menos sobre as soluções recomendadas.

No caso do novo governo, como era de se esperar, essas divergências apareceram ao longo de toda a campanha e só não foram mais estridentes por dois motivos. O primeiro foi a ordem de “calem-se”, transmitida seguidamente pelo candidato aos integrantes do seu grupo, inclusive ao seu guru econômico, Paulo Guedes. O segundo foi a multiplicidade de outros temas polêmicos questionados, principalmente na área social.

A proclamação da vitória de Bolsonaro foi apenas dois dias atrás, mas já há uma cobrança generalizada por detalhamento do programa do governo para a economia. Nas rodas de empresários e investidores, não se fala de outra coisa, a não ser sobre a necessidade de provas concretas da extensão e da profundidade do liberalismo do novo presidente, cujo teste decisivo seria a reforma da Previdência. É sintomática, nesse sentido, a manifestação das agências de risco Moody’s e Fitch, logo depois da divulgação dos resultados do segundo turno, defendendo rapidez no encaminhamento das reformas, especialmente a da Previdência.

Os sinais, porém, são de que ainda será preciso aparar arestas dentro da equipe. O próprio Guedes explicitou ontem essas diferenças, ao deixar claro, em outras palavras, que Lorenzoni é do ramo da política e, portanto, não fala sobre economia. O futuro ministro-chefe da Casa Civil havia tachado a proposta de Temer de “remendo” e defendido a ideia de uma nova e única reforma.

Pesa a favor dessa alternativa de pegar carona na reforma de Temer o fato de que não há eleição pelo caminho, a curto prazo, para pressionar os parlamentares a votar contra mudanças de regras nas aposentadorias — muitos deles, inclusive, nem estarão de volta ao Congresso no ano que vem, pois não foram reeleitos. Para que ela funcione, contudo, será necessário “convencer” Lorenzoni, a quem caberá comandar a articulação política, de que as mudanças são urgentes. E não apenas um desejo dos economistas.