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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Porto Alegre-Davos

Cida Damasco

24 de janeiro de 2018 | 18h34

Logo depois da chegada ao poder, Lula se viu diante de uma encruzilhada: comparecer ao Fórum Social de Porto Alegre, onde o PT sempre reinou absoluto, ou ao Fórum de Davos, templo da comunidade financeira internacional. Mais do que uma simples questão de agenda, tratava-se de uma escolha que, para a antiga militância e para os neo-aliados, definiria por onde o governo petista iria caminhar.

A Carta aos Brasileiros e a escalação da equipe econômica davam sinais de uma “conversão” de Lula, mas a prioridade ao Fome Zero apontava para uma fidelidade do então presidente às crenças do passado — na verdade, os dois movimentos indicavam que ele tentaria fazer uma ponte entre esses dois lados. Lula saiu de Porto Alegre direto para a estreia no palco de Davos, diante de uma plateia de investidores e políticos, ansiosa por definições da nova administração do Brasil.

Quinze anos depois, o futuro de Lula começa a ser decidido em Porto Alegre, enquanto em Davos o governo Temer busca passar a mensagem de que o Brasil está de volta e a economia brasileira pronta para iniciar novos voos. Independentemente de Lula. Armadilhas do destino?

Lula assistiu de longe, no sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo, berço do movimento sindical e do PT, à sua condenação por unanimidade pelo trio de desembargadores do Tribunal Regional Federal — que fizeram duro ataque à sua conduta, reforçaram a validade das provas, afirmaram o caráter técnico e não político do julgamento e ainda ampliaram a sentença dada pelo juiz Sergio Moro, de 9 anos e meio para 12 anos e um mês.

Em discurso antes da decisão, o ex-presidente repetiu o que tem dito em todas as manifestações — recurso após recurso, irá em frente na sua batalha pela participação nas eleições de outubro deste ano. Pelo menos publicamente, ninguém do PT ousa ainda falar em Plano B, C, etc. Seus adversários, também publicamente, insistem que é melhor bater o petista nas urnas, embora, pelo menos no centro, a preferência óbvia seja pela saída dele da disputa. Como se diz em “mercadês”, a expectativa de uma solução arrastada por meses a fio já estava precificada.

Em Davos, durante toda a quarta-feira Temer insistiu que as instituições funcionam, não há risco de instabilidade e a economia não está ameaçada pelas eleições. Enfatizou, como sempre, que não há alternativa às reformas e alertou para os riscos do populismo econômico. O ministro Henrique Meirelles, na terça-feira, atribuiu a liderança de Lula nas pesquisas de intenção de votos às boas lembranças que a população tem de seu primeiro mandato, quando ele próprio, Meirelles, era presidente do Banco Central — com a ressalva importante de que Lula atuou de forma muito diferente do que defende agora.

Temer e seu time têm dito aos investidores que o governo herdou a economia em péssimo estado e conseguiu recuperá-la. Agora é continuar nesse caminho. Como a reforma da Previdência empacou, o item da agenda econômica a ser “vendido” em Davos é a privatização da Eletrobras, fundamental para aliviar as contas do setor público.

Em Porto Alegre ou Davos, contudo, a ansiedade de agora é a mesma. Guardadas as diferenças de estilo e de interesses, todos que têm o olhar dirigido para o Brasil estão atrás de respostas sobre o desfecho do julgamento de Lula. Ou melhor, sobre os desdobramentos do resultado da sessão do TRF. Ainda há muitas perguntas sem resposta. Ou com respostas múltiplas. Condenado por unanimidade, poderá ser preso logo ou apenas afastado da disputa presidencial (os três desembargadores insistiram na prisão depois de esgotados os recursos na segunda instância)? Amparado nos recursos, mesmo que em menor número na comparação com um placar de 2 a 1, poderá continuar na disputa até quando? Poderá ser eleito sub judice? E, por último, Lula fora do páreo, quem tem chances de ser o próximo presidente?

Para quem vive de apostas, como é o caso dos mercados, trata-se de um momento como poucos. O otimismo da jornada de ontem, com a bolsa batendo recordes e o dólar em baixa, pode se repetir nos próximos dias. Principalmente se prevalecer a avaliação de que, com o resultado de 3 a 0, num prazo não muito longo Lula acabará tendo as portas fechadas para a entrada de fato na disputa em 2018 — e de que não haverá espaço para outro candidato forte com plataforma antimercados. Se a conclusão for de que ainda há muitas frestas abertas, poderá vir por aí um período de incertezas, traduzido, como sempre acontece nesses casos, numa certa volatilidade.

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