Preços dos combustíveis, sempre uma dor de cabeça para o governo

Cida Damasco

22 Maio 2018 | 17h17

Se você, caro leitor, acha que essa discussão já ocorreu em outras ocasiões, não se trata de impressão. Aumentos dos preços de combustíveis costumam causar atritos entre a ala mais política dos governos e a direção da empresa. Desta vez, contudo, parece haver um agravante. As pressões contra a alta dos preços dos combustíveis, exacerbadas nos bloqueios de vias públicas em todo o País organizados pelos caminhoneiros, coincidem com a melhora dos resultados financeiros da estatal — atribuída justamente a uma política mais realista de preços, que acompanha dia a dia as variações das cotações internacionais do petróleo e as oscilações do câmbio, depois de um longo período de perdas resultante não só da sangria provocada nos cofres da estatal pela corrupção como também do intervencionismo do governo Dilma.

Vamos combinar que é difícil para qualquer governo manter um distanciamento “brechtiano” da administração da Petrobrás. Não há a menor dúvida de que não se trata de uma empresa como outra qualquer. Nos tempos em que os reajustes de combustíveis eram anunciados com pompa e circunstância e filas se formavam nos postos para encher os tanques antes da entrada em vigor das novas tabelas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, chegou a manifestar descontentamento por não ter sido avisado antes da alta dos preços. O que não faz nenhum sentido é administrar a empresa de olho em outros interesses — e, nesse caso, não estou falando de corrupção –, mesmo que, aos olhos de alguns observadores, pareçam “do bem”, como o controle da inflação. Os acionistas que o digam.

A tentação se torna ainda maior em plena campanha eleitoral, como agora — quando as tensões na economia acirram as tensões na política e vice-versa. Embora Temer tenha desistido de disputar a reeleição, o MDB e o governo, pelo menos oficialmente, têm um candidato para chamar de seu: o ex-ministro Henrique Meirelles, justamente o pai da política econômica do governo Temer, entronizado como pré-candidato do partido à Presidência nesta terça-feira.

É fato que o momento ainda é de inflação bem reduzida, abaixo inclusive do piso das metas oficiais, o que desautoriza previsões de uma escalada geral de preços em razão dos aumentos dos combustíveis. Mas é inegável também que uma alta do diesel superior a 50%, em menos de um ano, tem um potencial de propagação pelo conjunto da economia — que só não é mais ampla por causa do enfraquecimento do nível de atividades. Em relação à gasolina, as frequentes remarcações de preço também têm causando um certo incômodo aos consumidores, expresso, inclusive, nos memes que circulam pela internet.

Por mais que se tente manter ares de normalidade, é claríssimo que a situação não é nada confortável para o governo. O ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, garantiu que a política da Petrobrás não muda e Pedro Parente, presidente da estatal, só foi chamado para uma reunião no Planalto com o objetivo de dar informações sobre o que está acontecendo no setor. Na mesma linha, Parente disse que, assim como os preços subiram com a alta do dólar, com a baixa eles caíram — baixa resultante da atuação do Banco Central no mercado de câmbio. Já a turma da política tem uma visão — digamos — mais pragmática.
Enquanto o ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, dizia que estão em estudo alternativas para baixar o preço da gasolina, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), avançava e fala numa revisão de preços “mais periódica”. Pois bem. Declarações de cá, acenos de lá e no final das contas o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) deu a notícia: o governo decidiu zerar a Cide sobre a gasolina e o diesel para conter os preços dos combustíveis. Um jeito de preservar a Petrobrás e enfrentar as pressões. Nessas horas, sempre se arruma um espaço fiscal.