Previdência: a batalha da comunicação

Cida Damasco

09 de março de 2017 | 16h31

Enquanto a Brasília política vive dias de tensão à espera da nova lista de Janot, a Brasília econômica move-se para levar adiante a reforma da Previdência. Sem Eliseu Padilha no comando da tropa, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, vem sendo o principal negociador da reforma – e o responsável por “vender” sua necessidade ao Congresso e a setores da opinião pública.

Depois da campanha do PMDB, acusada de “terrorista”, que ameaçava acabar com os programas sociais – “tchau Bolsa Família” — caso a reforma não fosse aprovada, a estratégia agora é passar uma mensagem de gravidade do quadro, mas sem avançar o sinal. É esse o desafio da equipe econômica, como se pode ver no debate promovido pelo Grupo Estado nesta quinta-feira, 9. Das falas de Meirelles, do secretário da Previdência, Marcelo Caetano, e de outros especialistas, é possível extrair alguns pontos-chave. Aqui vão quatro, bem resumidos:

  • A reforma não é um desejo, mas uma necessidade
  • A inexistência de déficit, quando se considera o balanço de toda a Seguridade Social e não apenas a Previdência, é uma falácia
  • Se for reduzida a idade mínima para as mulheres, ela terá de ser elevada para os homens. Portanto, o melhor é manter critérios harmônicos
  • O endurecimento das regras para “outros” setores, como militares, fica para mais adiante, para leis complementares

O governo está pondo suas cartas na mesa e tentando preservar ao máximo os chamados “pilares” da reforma. Ou pelo menos tentando adiar ao máximo a negociação de alguns deles.

O Congresso também começa a abrir suas cartas. Enquanto o ministro e o secretário defendiam a proposta, em São Paulo, o relator da reforma da Previdência na Câmara, deputado Arthur Maia (PPS-BA), insistia que, do jeito que está, ela não passa. Maia centra fogo principalmente no regime de transição do atual para o novo regime.

Senadores do próprio PMDB também já manifestaram sua discordância do texto original e a intenção de modificá-lo, o que implicaria o reenvio para a Câmara – mais tempo, portanto, para encerrar a votação e, consequentemente, mais riscos de contaminação pelas turbulências políticas e pelo calendário eleitoral.

Sob pressão da chamada opinião pública, é natural que os parlamentares hesitem em endossar na íntegra a proposta do Planalto. A questão, portanto, é fazer um trabalho “de fora para dentro”, ou seja, convencer os setores mais organizados da urgência das mudanças. E isso, sem sombra de dúvida, é uma tarefa ingrata. Da mesma maneira que falar em reforma da Previdência soa como música para empresários e para o mercado financeiro, para a média da população soa como uma ameaça a direitos já conquistados.

Por mais dados que os especialistas apresentem, dificilmente os trabalhadores concordarão com a tese de que, no Brasil, a Previdência é generosa, como o governo argumenta. O senso comum é que muitos são penalizados pelos privilégios concedidos a alguns poucos. E ainda não se formou uma convicção de que essas distorções serão eliminadas com a nova Previdência. A batalha da comunicação, crucial para a reforma, está só começando.

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