Previdência: otimismo do Planalto esbarra na realidade

Cida Damasco

13 de março de 2019 | 19h03

Se for só por dever de ofício, até que é explicável. Mas, se forem reais, as demonstrações de extrema confiança do governo numa rápida aprovação da reforma da Previdência correm o risco de dar lugar a frustrações. Com um novato no comando, o deputado Felipe Francischini (PSL-PR), a recém-formada Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) da Câmara deverá iniciar o exame da proposta do Planalto na semana que vem — e, daí em diante, ainda há um longo caminho a ser seguido.

Em conversa com jornalistas, nesta quarta-feira, Bolsonaro reafirmou a previsão de que a reforma será aprovada ainda neste primeiro semestre. E ainda acrescentou que, no Senado, a adesão será ainda maior, em razão da presença de muitos ex-governadores, e deverá contar até com o PT.

Nos bastidores e mesmo em público, porém, políticos mais experientes, incluindo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), têm manifestado ceticismo em relação a essas projeções, reconhecendo que é preciso gastar muita saliva para convencer os parlamentares da urgência da reforma. Não só saliva, evidentemente: depois daquela conversa recorrente de  antipolítica, tudo indica que o governo já está cedendo às práticas típicas da política nas relações com o Congresso, incluindo distribuição de cargos e verbas.

Claro que o governo não pode admitir, logo de saída, que vai demorar até que a fatura da Previdência seja descontada. Assim como também não é considerada conveniente, nesse primeiro momento, a identificação dos itens da proposta que poderão cair ou ser abrandados. Aliás, foi justamente isso que o presidente fez há poucas semanas, num outro encontro com jornalistas, o que teria irritado os integrantes da equipe econômica.

Não convém, no entanto, se deixar levar por um otimismo exagerado em relação ao tempo de tramitação da proposta  — e especialmente em relação ao tamanho e profundidade da reforma que sairá dessas negociações. À margem das declarações oficiais, é bom encarar com realismo o que vem pela frente.

Nos círculos técnicos e políticos, começa a haver um questionamento de alguns pontos do texto patrocinado pelo Planalto, e uma cobrança da abertura dos cálculos oficiais que levaram à projeção de um ganho fiscal na marca de R$ 1 trilhão. Vai dar trabalho.

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