Programas de governo e a filosofia de Garrincha

Cida Damasco

30 Agosto 2018 | 12h04

Já não era sem tempo. A 40 dias das eleições, os candidatos enfrentam verdadeira maratona de sabatinas e debates para apresentar seus programas de governo, com destaque para a economia. Uns com mais detalhes, outros com menos, muitos com explicações ainda pouco consistentes principalmente sobre a fonte dos recursos para bancar suas prioridades.

Entre as promessas que apareceram nessa temporada, estão a formatação de uma espécie de “Refis” para que os cidadãos endividados consigam tirar seus nomes do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), por Ciro Gomes, a criação de 10 milhões de empregos nos quatro anos de mandato, por Henrique Meirelles, a taxação dos bancos conforme a cobrança de juros, por Lula/Fernando Haddad, e o compromisso de Ciro e Geraldo Alckmin de zerar o déficit fiscal em dois anos. Mas não é só isso. A maioria dos programas trata do que os candidatos pretendem fazer, se eleitos, com as reformas, especialmente a da Previdência. Retomar a proposta, do jeito como está, revisá-la ou partir para uma outra, em novas bases. Temas obrigatórios, mas que não dependem apenas da iniciativa dos candidatos.

Claro que definir o que pretendem fazer com a economia já é mais do que meio caminho andado. Mas, nesse presidencialismo de coalização que está instalado no País, o outro meio caminho pode ser bem mais pedregoso do que se imagina. Não há expectativa — ou melhor, não há esperança — de que o Congresso de 2019 seja muito melhor do que o de 2018. Apesar de todas as campanhas que circulam nas redes sociais, talvez o índice de renovação não seja o desejado.

Um Congresso fisiológico, ainda sob influência dos velhos caciques regionais e das bancadas representantes de interesses nem sempre “republicanos”, está no cenário traçado pela quase totalidade dos analistas políticos. E com poder consolidado caso o próximo presidente não chegue ao Planalto com força total, o que parece bastante provável. Segundo levantamento recente do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), dos 513 deputados federais que serão eleitos em outubro, só cerca de 40% serão nomes novos, o menor índice de renovação desde 1990.

Tanto o governo Dilma quanto o governo Temer passaram por provas duras no embate com o Congresso — independentemente da pertinência dos projetos que tentaram passar e dos motivos que levaram a essa rejeição. No começo do segundo mandato de Dilma, por exemplo, os chamados “cabeças pretas” do PSDB, capitaneados pelo senador Aécio Neves, então recém-derrotado pela petista nas eleições presidenciais de 2014, tentaram levar à frente uma pauta-bomba na área fiscal — tudo aquilo que ia contra o ideário dos tucanos.

Já no governo Temer, emparedado pelo Congresso depois da delação dos irmãos Batista, aos poucos as medidas de ajuste fiscal foram sendo adiadas e/ou esvaziadas e a reforma da Previdência, várias vezes anunciada como prioridade número 1, acabou abandonada pela própria base parlamentar do presidente — a bem da verdade, pelo próprio círculo palaciano. A capitulação de Temer às pressões do Supremo Tribunal Federal para a aprovação do reajuste salarial de 16,38%, ameaçando agravar os desequilíbrios fiscais e se contrapondo à crise no mercado de trabalho em geral, escancara essa situação.

Políticos mais experientes sabem que terão de encaminhar projetos mais amargos logo na largada do governo, quando ainda estarão no período de graça proporcionado pela vitória nas eleições. Mesmo assim, ainda há dúvidas quanto à existência desse período no futuro governo, depois de uma eleição tão fora dos padrões como a atual. Como diria Garrincha, numa preleção do técnico sobre como o time deveria jogar para vencer a seleção russa, só falta combinar com os russos. E como tem “russo” por aqui!