Queda dos juros na ponta é tarefa para novo governo

Cida Damasco

01 Agosto 2018 | 20h36

Cortar a taxa básica de juros à metade, em dois anos, para 6,5%, a mais baixa desde a criação do Copom, em 1996, indiscutivelmente é um feito relevante — mesmo considerando-se que o Brasil continua entre os campeões internacionais dos juros elevados. A percepção do cidadão comum, porém, não é essa. Cada vez que alguém consulta a tabela dos juros cobrados por alguma instituição financeira para financiar a compra de um bem ou para conceder um empréstimo, fica patente que está faltando a segunda parte do serviço. Ou seja, acelerar e aprofundar a queda dos juros da vida real. Em junho, por exemplo, a taxa média das operações contratadas na chamada carteira livre chegou a 38,5% ao ano, praticamente seis vezes a Selic, nas linhas específicas para pessoas físicas a média era de 53,2% e, no cheque especial, ainda superava os 300%.

A prática está mostrando que o trabalho é duríssimo. Trata-se de atacar o chamado spread bancário, aquela expressão que no “dialeto” do setor financeiro define a diferença entre o que o banco paga ao investidor para remunerar as aplicações dos seus recursos e o que cobra dos seus clientes. E é exatamente o comportamento do spread que explica a permanência nas alturas dos juros da vida real. Calcula-se que o spread esteja em 33,3 pontos nas operações de crédito com recursos livres.

Os candidatos à Presidência da República e seus assessores econômicos, é claro, têm consciência de que a questão dos juros é crucial e, quando a campanha esquentar, não dará para escapar dela. Aqueles mais próximos ao governo não poderão se limitar a vender  para os eleitores a conquista da redução da Selic. Terão de discutir também como essa conquista vai chegar ao público em geral — consumidores, empreendedores e pequenos empresários.

Na outra ponta, os mais críticos também não poderão simplesmente surfar no discurso mais populista, contra a “ganância dos bancos” e/ou a “cumplicidade do governo”. Terão de dar respostas mais “criativas” ao eleitorado. E é aí que as coisas se complicam. Não há alternativa clara para mudar esse quadro no curto prazo. A proposta incluída no programa do PT — uma tributação progressiva sobre os bancos em correlação direta com os spreads –, por exemplo, não foi bem recebida nos mercados. Há praticamente um consenso de que a concentração bancária é a grande responsável por manter os spreads elevados. Apesar dos argumentos em torno de “falta de garantia” para os credores, que justificaria, portanto, a adoção em larga escala do cadastro positivo.

Segundo relatório do próprio Banco Central, mais de 80% dos ativos estão nas mãos de Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú, Bradesco e Santander, a maior proporção entre todos os países emergentes. No crédito pessoal, as mesmas instituições dominam mais de 75% das operações. A experiência no governo Dilma já comprovou que derrubar os juros “na marra” não funciona. Mas a persistência desse descompasso entre os juros básicos e os juros na ponta é um entrave para a economia sair do atual estado de letargia.