Quem manda na economia

Cida Damasco

20 Setembro 2018 | 17h27

Aconteceu mais cedo do que se esperava. O economista Paulo Guedes, guru de Jair Bolsonaro (PSL), fugiu o quanto pôde de debates e sabatinas e, quando resolveu abrir a boca, tocou em temas intocáveis, como a execrada volta da CPMF e a injusta fixação de uma alíquota única de Imposto de Renda. Sob forte ataque nas campanhas de outros candidatos e nos círculos econômicos, acabou enquadrado pelo próprio Bolsonaro.

Para quem via Paulo Guedes como o fiador da conversão de Bolsonaro ao liberalismo, e até o presidente de fato na hipótese de vitória do candidato, esse atrito pode até ter sido uma surpresa. Mas, convenhamos, trata-se apenas da confirmação do óbvio: quem manda é o candidato e, mais ainda, o presidente. Estranho alguém imaginar o contrário, ou seja, que o candidato/presidente seja submisso ao economista.

Que a “cola” rabiscada na mão, as gaguejadas e as frases feitas de Bolsonaro nas entrevistas escancaram sua pouca familiaridade com os temas econômicos — para dizer o mínimo –, não há sombra de dúvida. Mas isso não significa que ele ignore o peso junto ao eleitorado de qualquer aceno de aumento de impostos. Especialmente do retorno da CPMF, aquelas quatro letrinhas que viraram símbolo da rejeição a mais tributos e despertam ojeriza geral.

É verdade que o embate de Bolsonaro com seu guru econômico tem suas particularidades. Com todas as desconfianças que cercam seu nome, sua trajetória, suas convicções políticas e seu preparo para a Presidência da República, desfilar em companhia de um economista tido como liberal tem um sentido especial — principalmente diante dos mercados, cujos representantes só pensam naquilo, ou seja, nas promessas de que o candidato não irá se desviar da trilha liberal. Mas, guardadas as devidas proporções, a história recente mostra que essas demonstrações não são novidade.

Lula, por exemplo, desembarcou em Brasília escoltado pela dupla Antonio Palocci, o médico sanitarista que durante a campanha já havia conquistado a confiança dos setores empresariais, na Fazenda, e o bem sucedido executivo financeiro Henrique Meirelles, no Banco Central. Os dois personificavam os compromissos expressos na Carta aos Brasileiros, que teve o objetivo central de afastar os temores do mercado em relação a um risco de ruptura com o PT no poder.

Dilma, no primeiro ato, manteve o petista histórico Guido Mantega na Fazenda e fez um governo considerado mais “ideológico” do que o do primeiro mandato de Lula. Pressionada pelo agravamento do quadro econômico, no entanto, ela iniciou o segundo mandato com um ministro da Fazenda ao gosto dos mercados, Joaquim Levy. Mas o próprio ministro pediu para sair, quando se certificou da falta de espaço dentro do governo.

Não há hipótese de um ministro se sobrepor ao chefe. Além disso, mesmo que ele agrade aos mercados e até mesmo aos círculos palacianos, também não há garantia de que vá emplacar seus programas. Gurus econômicos sem capacidade de negociação e/ou sem apoio de um articulador político tendem a naufragar nas relações com o Congresso. E o Congresso, como se sabe, às vezes manda no próprio presidente.