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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Questão de percepção

Cida Damasco

10 de janeiro de 2018 | 19h48

Missão quase impossível convencer a população em geral de que a inflação desabou no ano passado. A ponto de obrigar o presidente do Banco Central a justificar o fato de a taxa anual ficar um tantinho abaixo do piso da meta de inflação. Foi só 0,05 ponto porcentual — 2,95% frente a 3% –, mas bastante significativo, tendo em vista o longo período em que o estouro da meta atormentou as equipes econômicas e as lideranças políticas. Com toda a razão, não só por causa dos efeitos concretos do descontrole da inflação sobre o conjunto da economia como também pela sensibilidade ao tema que sobrevive no País, principalmente para quem viveu “os tempos loucos” da hiperinflação.

Mas, se a inflação foi derrubada para o menor nível desde 1998 e se esse resultado ancorou-se especialmente na queda dos preços dos alimentos, por que os cidadãos comuns ainda resistem a enxergar essa realidade? Na fila dos supermercados e dos bancos, o que mais se ouve é “a inflação só caiu para o governo” ou “na minha casa a inflação é outra”. Não falta quem desconfie da correção dos números.

Pelo menos três razões explicam esse ceticismo. Em primeiro lugar, quando se fala em queda da inflação, muitos entendem como queda de preços — não como uma variação mais branda.

Em segundo lugar, como a inflação é uma média, referente a uma determinada cesta de produtos e serviços, há uma diferença considerável de peso, dependendo da faixa de renda e até da faixa de idade das famílias. Gastos com educação, por exemplo, obviamente atingem mais famílias com maior número de crianças e adolescentes — e sua variação, para cima ou para baixo, faz muita diferença em seus orçamentos. Da mesma forma, gastos com transporte têm menos impacto para idosos, na contramão das despesas com saúde.

Em terceiro lugar, quando os preços de produtos de uso generalizado têm altas que chamam a atenção, como é o caso do gás de cozinha, a tendência é que esse movimento tenha forte repercussão no dia a dia dos consumidores, ainda que seja compensado pela estabilidade ou até pelo recuo de outros preços.

As expectativas para este ano são de uma alta na inflação para mais perto de 4%. Até porque não dá para contar com a repetição da deflação dos preços de alimentos — nesse caso foi queda de preços, sim –, consequência direta da supersafra agrícola. E, no outro extremo, também não está no cenário uma nova recessão, capaz de reduzir preços de produtos e serviços.

Se essas projeções se confirmarem, tudo conspira para mais uma ou duas rodadas de redução na taxa básica de juros. Bem-vindas, principalmente se forem acompanhadas por uma redução mais substancial das taxas cobradas aos tomadores de empréstimos, empresas ou pessoas físicas. Nesse caso, ao contrário do que acontece com a inflação, a percepção do cidadão comum parece plenamente confirmada pela realidade. Os juros caem, caem, conforme alardeiam as instituições financeiras, mas continuam em níveis perigosos.

 

 

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