Reforma no vizinho

Cida Damasco

14 de agosto de 2019 | 13h29

Depois da acachapante derrota nas eleições primárias de domingo, o presidente Mauricio Macri tenta sair das cordas com o anúncio de um pacote de medidas para aliviar o quadro econômico na Argentina. O tempo corre e ele não tem muito mais o que fazer para evitar a provável repetição desse resultado em outubro.

Macri veio com tudo nesta quarta-feira, 14: aumento do salário mínimo, bônus para funcionários públicos e trabalhadores do setor privado, congelamento de preços, redução de impostos. Aquelas medidas que fazem parte de receituários em desuso e são vistas como heresia pelos adeptos do liberalismo, que viam no presidente argentino um precursor de novos caminhos para a América Latina.

Em meio à derrocada do governo, ainda se discute se Macri deveria ter dado meia volta antes ou, ao contrário, deveria ter ido mais longe, aprofundando o ajuste, em vez de optar pelo gradualismo Tudo indica, porém, que a conversão do presidente argentino será tardia e não conseguirá deter a volta do kirchnerismo ao poder.

O que todos se perguntam, nesse momento, é quais os efeitos desse novo terremoto da Argentina sobre a região. Novo e velho, ao mesmo tempo, como sugere um post que tem circulado nos últimos dias nas redes sociais, ironizando que quem sai da Argentina e volta 20 dias depois, vê tudo mudado, e quem volta 20 anos depois, vê tudo igual. Um país com quase um terço da população urbana abaixo da linha de pobreza, inflação de 48% no ano passado, recessão e desemprego, pendurado num empréstimo de US$ 57 bilhões do FMI e com ameaça de renegociação da dívida pública.

A pergunta sobre o impacto do terremoto na América Latina dirige-se especialmente ao Brasil, que tem uma “união instável” com a Argentina e com ela lidera o Mercosul — apesar de incontáveis rusgas e algumas crises maiores ao longo dos anos.

Para o Brasil, a Argentina tem sido o terceiro parceiro comercial, mas as exportações para esse mercado já vêm sofrendo um baque e hoje representam menos de 5% do total. Mesmo assim, não dá para dispensar essa clientela, já que, nesse momento, qualquer desestímulo à atividade econômica pode ajudar a empurrar o Brasil para uma nova recessão.

Com o anúncio desse pacote, Macri deu um passo atrás na retórica dos últimos dias, pediu desculpas aos argentinos por não ter entendido o recado das urnas e ter jogado sobre a oposição a responsabilidade pelas fortíssima reação dos mercados ao resultado das primárias. Quem não parece disposto a repetir a mesma estratégia é Bolsonaro que, a despeito dos conselhos de vários aliados, bateu pesado na “esquerdalha” argentina — como se fizesse parte da tropa de choque da campanha de Macri. E recebeu, em resposta do vitorioso Alberto Fernández, uma chuva de acusações, entre elas de misoginia, racismo e violência.

Claro que, em política, pragmatismo é o que não falta — ainda que Bolsonaro pareça empenhado em se afastar dessa linha. Por mais incômoda que seja a vizinhança, Brasil e Argentina terão de se aturar. Mas não há bons prognósticos para o Mercosul e, por tabela, para o acordo com a União Europeia, que ainda precisa do aval dos Parlamentos dos países envolvidos.

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