Reformas para ontem

Cida Damasco

21 Novembro 2016 | 19h55

 

Não era preciso perguntar aos velhos e novos integrantes do Conselhão o que eles acham que deve ser feito para melhorar a economia. Há praticamente uma unanimidade a esse respeito: reformas, reformas e reformas. Para quando? Para ontem. Todos eles sabem que vai doer e por isso mesmo, a vontade é que as mudanças sejam definidas o mais rápido possível, para que os resultados também apareçam o mais rápido possível.

Ainda mais agora que ficou claro que sair do fundo do poço vai demorar mais do que se previa e que o efeito Trump nos mercados internacionais pode tornar essa escalada ainda mais custosa. Nesta segunda-feira, 21, o governo sacramentou a nova previsão de crescimento do PIB para 2017, que já foi incorporada na mais recente pesquisa Focus, do Banco Central, o termômetro do mercado financeiro: 1%, em confronto com a previsão oficial anterior de 1,6%.

Nem mesmo o selo de bom pagador das agências de risco deve vir tão rápido: a S&P, que retirou o grau de investimento do Brasil em 2015, considera improvável a retomada dessa classificação até 2018.

Mas quais reformas foram defendidas pelos membros do Conselhão? Previdenciária e trabalhista. Alguns se arriscam a falar numa reforma tributária restrita – ou pelo menos, em providências para acabar com a guerra fiscal – e até numa reforma política, que até pouco tempo atrás era considerada a “reforma das reformas”.

Acontece que o tempo da política nem sempre é o tempo da economia. Por mais urgentes que sejam as medidas que constam do cardápio selecionado pelo governo. Ninguém muda as regras previdenciárias e trabalhistas, que mexem com a vida de todas a população, numa canetada. É preciso negociar, negociar e …. negociar. Basta ver o que aconteceu com a reforma trabalhista, providencialmente empurrada para debaixo do tapete logo depois das declarações desastradas do ministro Ronaldo Nogueira sobre aumento de jornada de trabalho.

Se o presidente Temer ouviu o que já esperava sobre a urgência de reformas, na estreia do novo Conselhão, deve ter se surpreendido com o recado do publicitário Nizan Guanaes: aproveite que é impopular e toque em frente as reformas impopulares. Como frase de efeito, até que vai bem. Mas difícil imaginar que um político goste de escutar esse tipo de avaliação. E, mais ainda, que ele se conforme em não tentar reverter essa situação. Será um teste e tanto para Temer.