Saindo do zero?

Cida Damasco

01 Setembro 2017 | 11h23

Para o cidadão comum, a expressão crescimento zero costuma causar certa estranheza. Ora, se é zero, não é crescimento. E ponto final. No caso do desempenho do PIB neste ano, contudo, ela pode até dar margem a interpretações diferentes. Depois de dois anos de recessão, crescimento zero ou perto de zero pode indicar a estabilidade da atividade econômica – estabilidade na baixa, é verdade, mas estabilidade. Mas pode indicar também uma estagnação  e uma dificuldade de engrenar uma marcha mais acelerada, rumo a um crescimento efetivo.

Olhando para o PIB do segundo trimestre de 2017, em qual situação a economia brasileira se encontra? Sem ficar em cima do muro, pode-se dizer que as duas alternativas têm um fundo de verdade. É inegável que o simples fato de não haver queda na produção já produz um certo alívio. Ainda mais quando se leva em conta a barafunda política em que se encontra o País – e as consequentes idas e vindas da política econômica, notadamente na área fiscal, após a delação da JBS.

Afinal de contas, o PIB mostrou um ligeiro aumento de 0,2.% no segundo trimestre, na comparação com o primeiro, e de 0,3,% sobre o mesmos três meses de 2016 – o que resultou num crescimento zero no semestre, também na comparação com o mesmo período de 2016. Desta vez, inclusive, o resultado do PIB quase empatou com o do IBC-Br, o indicador antecedente calculado pelo Banco Central: 0,25%.

São, porém, variações estreitas, que ainda não autorizam nenhuma expectativa mais ambiciosa para o curto prazo. Mesmo quem está revendo para cima suas projeções para 2018, ainda está se cercando de uma boa dose de cautela. A previsão mais recente para 2017, segundo a pesquisa Focus, é de 0,39%. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem insistido que o que vale, em termos de tendência, é o número do último trimestre – que ele vinha fixando em cerca de 2% sobre o mesmo período do ano antecedente. Um resultado mais expressivo, portanto, do que o do ano fechado.

Por mais que o governo insista no descolamento entre a economia e a política, sabe-se que a temperatura da economia brasileira — e principalmente a percepção dessa temperatura pela população/eleitorado — , lá por meados de 2018, vai influenciar a campanha eleitoral. E por mais que Temer também insista que está aí para cumprir uma agenda impopular mas necessária, sabe-se também que quem está no poder não abre mão da continuidade – e, por isso, chegar ao fim da pinguela com uma economia capengando só atrapalharia o futuro do PMDB e seus satélites. Sem contar os projetos pessoais das estrelas do seu time, caso do ministro Meirelles.

O governo já entrou em campo para tentar melhorar o clima em relação às expectativas do empresariado e da população em geral – os mercados, pelo visto, não se sensibilizam muito por esse tema. Depois da bem sucedida liberação dos saques das contas inativas do FGTS, veio a liberação do PIS-Pasep para idosos, na mesma linha da medida anterior embora de menor repercussão. Também continua de pé a política do Banco Central de derrubada dos juros básicos. Com todo cuidado para não sugerir um repeteco da ofensiva Lula/Dilma, mas tudo indica que a ordem é empurrar o consumo. Sim, o consumo, ao contrário do que o governo vinha dizendo há bom tempo.

Afinal, é justamente o consumo que está comandando essa melhora na atividade econômica, com alta de 1.4% sobre o primeiro trimestre e de 0,7% sobre o mesmo período do ano anterior – na esteira do alívio do desemprego, embora sustentado pela informalidade, da melhora na renda do trabalho, da redução da inflação e das taxas de juros. Quanto ao investimento, aquele que deslancharia com a volta da confiança, está demorando a dar sinal de vida: a queda no trimestre, pelas mesmas bases de comparação, foi de respectivamente 0,7% e 6,5%.