Saudades do Zé Alencar?

Cida Damasco

20 Julho 2016 | 19h05

Foi no mínimo animada a estreia no Copom do novo Banco Central, comandado por Ilan Goldfajn. Não por qualquer susto com a decisão. Por unanimidade, a taxa básica de juros, a Selic, foi mantida em 14,25% ao ano, como apostava a maioria dos analistas.

É que, como nos velhos tempos, o mercado foi surpreendido por uma declaração do ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, o porta-voz da chamada banda política do governo Temer, de que o presidente gostaria de ver uma queda de juros.

Pronto. Foi o suficiente para despertar lembranças das velhas reuniões do Copom, na gestão do ex-presidente Lula, que eram invariavelmente precedidas por entrevistas do então vice-presidente José Alencar, defendendo a derrubada dos juros. A diferença é que, agora, Temer saiu a campo imediatamente e, antes que os ruídos aumentassem, garantiu a autonomia da equipe econômica.

Lá atrás, no governo Lula,  as declarações de Zé Alencar, que inicialmente causavam mal-estar em parte da equipe, acabaram sendo consideradas quase como folclóricas, embora ele vocalizasse queixas do empresariado. Além disso, encaixavam-se bem no estilo “estica e puxa” da política econômica de Lula, sempre balançando entre as linhas divergentes da Fazenda de Guido Mantega e as do Banco Central de Henrique Meirelles.

Nove entre dez analistas jogavam suas fichas na manutenção da Selic, nessa reunião, ainda que num prazo mais dilatado — ou seja, até o fim do ano — a tendência seja mais de redução de taxas. Mas dez entre dez analistas estavam interessados mesmo em como agiria esse BC que se diz mais transparente, mais disposto a explicar do que a testar a capacidade do mercado de entender o dialeto do coponês.

Nesse sentido, o BC fez o que prometeu. O comunicado saiu cedo, às 18 horas, pela internet, apontando com clareza as razões para a não-flexibilização da política monetária: inflação acima do esperado, principalmente por causa dos preços de alimentos, e incertezas quanto à aprovação dos ajustes. Sempre eles, os tais ajustes.

A conferir, daqui por diante, se o BC de Ilan Goldfajn continuará a trabalhar com tranquilidade ou se o ministro Padilha insistirá em interpretar os desejos do presidente Temer.