Sobre bondades

Cida Damasco

19 Abril 2018 | 16h39

Os manuais de autoajuda eleitoral recomendam que governos em início de mandato, com o cacife da vitória, façam todas as maldades necessárias. Bondades ficam para depois. Quando se trata de reeleição, o conselho também é recorrente: ampliar ou retomar as bondades, para que isso fique na memória do eleitor na hora do votação.

Tudo indica que estamos exatamente nesse momento. A atividade econômica empacou, a situação não está lá para consumo e o governo se mexe para mudar esse panorama. Não se sabe bem se o alvo continua a reeleição, tendo em vista os baixíssimos índices de aprovação do governo e de intenções de voto, tanto do próprio presidente Temer como do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, executor da política econômica reprovada pelo eleitorado.

Temer está à caça de alternativas para reproduzir o efeito FGTS no crescimento do PIB — a avaliação é que a liberação dos saques das contas inativas, no começo do ano passado, beneficiou 25,9 milhões de trabalhadores, injetou algo como R$ 44 bilhões no mercado e deu um considerável impulso ao PIB de 2017. Na falta de uma medida certeira na mesma direção, vem aí um conjunto de medidas de maior ou menor alcance, como a extensão da liberação dos saques do Fundo de Garantia para quem pedir demissão e da liberação do PIS-Pasep para todos que fizeram depósitos até 1988, independentemente da idade.

Nada, porém, é indolor, como mostrou a reportagem de Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli no Estadão: teme-se pelo efeito dessa sangria nos empréstimos do BNDES e no financiamento para a casa própria. Se o objetivo do novo governo, ao promover novas bondades, é sair do atoleiro eleitoral, talvez não funcione. Que a atividade econômica está precisando de um gás, não há a menor dúvida. E já se sabe que isso não virá pelo lado do investimento. Mas, mesmo pelo lado do consumo, o efeito também é duvidoso.

Economia e política são irmãs inseparáveis nesse momento. Até o consumidor mais alheio à barafunda política — se é que isso é possível — tem dúvidas sobre o que vai acontecer com o País depois das eleições. Principalmente sobre o que vai acontecer com seu emprego e seu rendimento. E dúvidas dessa natureza não costumam combinar com decisão de compras de bens de maior valor.

Na mão contrária, o cenário eleitoral também depende — e muito — não só do estado real da economia como também do que a população pensa disso. E, por tabela, do que a população pensa que virá com cada uma das candidaturas que estão postas na mesa.