Sobre desigualdades

Cida Damasco

03 de dezembro de 2016 | 09h47

Os indicadores sociais de 2005 a 2015, divulgados nesta sexta (2) pelo IBGE, mostram o retrato de um País marcado por desigualdades, seja qual for o critério utilizado. Desigualdades que resistiram a um período de crescimento na economia e de adoção de políticas públicas com foco justamente nessa questão. Houve muitas melhoras, é inegável, mas ainda tem muito a ser feito para o que o Brasil fique bem na foto.

Alguns indicadores que comprovam essa situação:

1) Os trabalhadores formais tiveram em 2015 uma remuneração média de quase o dobro dos informais (R$ 2195 frente a R$ 1174). Nos dois casos, houve aumento significativo ao longo do período, embora com uma queda de 4,6% em 2015.

2) 5) Em 2015, a remuneração das mulheres era equivalente a 76% da registrada entre os homens; e, em cargos de chefia, esse porcentual cai para 68%.

3) Em 2015, pretos ou pardos eram metade da população, mas correspondiam a 75,% das pessoas  que tinham os menores rendimentos (10%). Em contrapartida, eram apenas 17,8% do contingente com os maiores rendimentos (1%)

4) A participação de pretos ou pardos na população de jovens entre 18 e 24 anos que cursavam o ensino superior aumentou 7,3 pontos porcentuais e chegou a 12,8% em 2015. Mas os brancos ainda representam praticamente o dobro desse contingente.

5) Cresceu bastante o porcentual de jovens que nem estudam nem trabalham, os chamados “nem-nem”, e as mulheres são maioria: entre os homens, esse contingente passou de 11,1% para 15,4% nos 10 anos, mas as mulheres nessa condição são 29,8%.

A grande questão, agora, é como tentar pelo menos preservar as conquistas já obtidas num quadro de recessão persistente, sem perspectiva de recuperação a curto prazo, e de contaminação do debate político. Os indicadores mais recentes mostram que a redução de desigualdades de renda em 2015 se deu mais pela piora do quadro no topo da pirâmide do que pela melhora nas bases: ou seja, nesse período, todas as classes sociais ficaram mais pobres.

Por sua vez, a contaminação do ambiente político, exacerbando o debate em torno de distorções das políticas sociais – como as já verificadas na concessão do financiamento estudantil, o Fies —  corre o risco de acabar não só com as distorções como com as próprias políticas.