Com tensão eleitoral e cenário externo, mercados não escapam. Instabilidade vai longe

Cida Damasco

05 Setembro 2018 | 15h35

E o estresse não cede. Lá fora a disputa comercial entre Estados Unidos e China tem novos lances a cada dia e a Argentina pede socorro, para interromper a queda livre. Enquanto isso, aqui dentro o jogo político continua eletrizante, a um mês do primeiro turno das eleições: pesquisas quase diárias feitas sob encomenda de instituições financeiras, além pesquisas não divulgadas e canceladas pelo Ibope e pelo Datafolha, alimentam as incertezas, num quadro em que o PT estica a corda ao máximo antes de cumprir a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e substituir Lula por Fernando Haddad como candidato à Presidência da República.

O dólar terminou a terça-feira praticamente empatado com a cotação do dia anterior, em R$ 4,15, mas durante o dia chegou a encostar em R$ 4,20, o nível mais elevado desde janeiro de 2016. O índice Bovespa caiu 1,9% na terça-feira, para o menor nível desde 11 de julho. Nesta quarta-feira, como acontece com frequência depois de um dia de intensa movimentação, há uma espécie de trégua.

Muito se discute sobre o quanto a tensão pré-eleitoral tem pesado na volatilidade nos mercados nos últimos tempos. Há cálculos e avaliações para todos os gostos. Estudo da consultoria Tendências, feito a pedido do Estado, por exemplo, atribui quase 80% da alta do dólar neste ano justamente ao quadro político, às incertezas sobre quem será o novo ocupante do Palácio do Planalto e, por tabela, qual será sua política econômica.

Divergências de diagnósticos à parte, não saber para onde o País vai caminhar a partir de 2019 certamente acentua — e muito — a instabilidade dos mercados — mesmo que esse não seja o fator determinante dessa movimentação. Para prejuízo de muitos e, é claro, para lucros de outros tantos. Nessas alturas, aquela tese do descolamento entre economia e política, popularmente traduzida para algo como  “a economia não está nem aí para a política”, que circulou durante meses a fio e iludiu boa parte dos observadores, parece conversa de um passado distante.

Mas como é que esse treme-treme dos mercados pode agitar o restante da economia, e afetar inclusive aquela parcela da população que mal tem dinheiro para chegar ao fim do mês e, portanto, passa ao largo das viagens internacionais e mais ainda das aplicações nas bolsas de valores? Acontece que a turbulência dos mercados, especialmente a escalada do dólar, chega a todos por vários caminhos. Primeiro, provocando um encarecimento de bens com preços dolarizados, como é o caso dos combustíveis — a Petrobrás, por sinal, acaba de anunciar o segundo aumento da gasolina nas refinaria em cinco dias e, com essa nova remarcação, o preço do combustível chegou ao ponto mais alto desde junho do ano passado, quando teve início a política de seguir as variações das cotações externas. Segundo, forçando uma alta de juros, para conter a inflação, com consequências já conhecidas sobre a atividade econômica.

O impacto da alta do dólar na inflação só não é maior por um “mau” motivo. Ou seja, porque a fraca demanda amortece o repasse da alta do dólar para os preços finais de produtos em setores onde há concorrência. Por enquanto, a julgar pela pesquisa Focus, os agentes dos mercados ainda mantêm sangue frio em relação à atual turbulência e demonstram acreditar que se trata de algo passageiro — as projeções para inflação, juro básico e variação cambial no fim do ano continuam estacionadas respectivamente em 4,11%. 6,5% e R$ 3,70/dólar. Mas vários analistas já deixam de lado um pouco o cenário doméstico e olham com apreensão para o cenário internacional, que na sua avaliação tem tudo para comprometer o início do mandato do novo presidente. Por mais “juízo” que ele tenha.