Trombadas externas?

Cida Damasco

15 Novembro 2018 | 14h33

As primeiras reações à escolha do diplomata Ernesto Araújo para chefiar o Ministério das Relações Exteriores dividiram-se entre surpresa e espanto. Araújo atropelou outros diplomatas mais experientes, como os embaixadores José Alfredo Graça Lima e Marcos Galvão, que vinham sendo apontados como preferidos para o cargo. A busca pelo perfil do novo chanceler revelou um adepto de teses que se apresentam, pelo menos à primeira vista, como contrárias ao liberalismo pregado pelo futuro superministro da Economia, Paulo Guedes.

Vão aqui pelo menos três definições do diplomata, extraídas do seu blog “Metapolítica 17: contra o globalismo” e em publicações especializadas: 1) “Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. É um sistema anti-humano e anticristão.” 2) “O presidente Donald Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais.” 3) “A Europa é hoje apenas um conceito burocrático e um espaço culturalmente vazio, regido por valores abstratos.”

É fato que todos os observadores já contavam com um afastamento do Itamaraty das teses que vigoraram durante a era petista, como é o caso do chamado alinhamento Sul-Sul. Afastamento que, por sinal, já vinha ocorrendo no curto mandato do presidente Temer. Mas a expectativa é que a virada ocorresse em direção a uma diplomacia mais racional, como indicavam os outros nomes cogitados para o cargo.

Graça Lima divulgou ontem uma nota em que dá um recado claro sobre quais deveriam ser as prioridades do novo Itamaraty. Ele agradece o apoio e o carinho manifestado a seu nome, que o teriam estimulado a “participar do debate público sobre a oportunidade que ora se abre para formular a executar uma política externa a um tempo inclusiva e racional, afinada coma política econômica, preservando-se a competência do Itamaraty na execução da política de comércio exterior”.

Superada a fase de perplexidade com a escolha de Ernesto Araújo, o que precisa ficar claro agora é como ele aplicará essas teses econômico-religiosas no ministério e como sua prática vai se conciliar com a de Paulo Guedes, à frente da Economia. As primeiras manifestações de Bolsonaro na área diplomática, principalmente de apoio ostensivo a Israel, já provocaram reações do Egito, um dos grandes clientes de exportadores de carne do Brasil. Os críticos do aparelhamento do velho Itamaraty começam a temer que o novo Itamaraty só tenha os sinais trocados, com um alinhamento total aos Estados Unidos de Trump — e que o setor externo pague o preço dessas escolhas.