Tudo é relativo

Cida Damasco

10 de agosto de 2016 | 16h48

Bem se diz que, em política, vitórias e derrotas são conceitos muito relativos. As reações à votação na Câmara, na madrugada de quarta-feira, do projeto de renegociação de dívida dos Estados são prova dessas contradições.

No mercado, é voz corrente que o governo – ou melhor, a equipe econômica – sofreu uma forte derrota com a retirada do texto-base das contrapartidas exigidas aos Estados. Mais especificamente a proibição da concessão de reajuste aos servidores, condição antes considerada “inegociável” pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. No final das contas, o projeto teria se desidratado, ao manter apenas uma exigência aos Estados: limitar, por dois anos, o crescimento dos gastos à inflação do ano anterior.

Meirelles, porém, apressou-se a enviar uma nota classificando a decisão da Câmara como “o primeiro passo concreto do ajuste estrutural das despesas públicas em décadas”. Mais tarde, em encontro com políticos e empresários, afirmou que a restrição a reajustes salariais nos Estados era medida auxiliar dentro do projeto.

Exageros e recuos a à parte, o ministro parece estar se resignando à arte do “possível”. E o “possível” mostra-se cada vez mais modesto.

Não há motivos para espanto. Talvez as expectativas do mercado em relação ao ajuste e à capacidade da equipe econômica de driblar as pressões é que estejam superdimensionadas. Não o contrário. É mais ou menos como se a substituição de Dilma Rousseff por Michel Temer tivesse, da noite para o dia, modificado todo o Congresso e desfeito todos os lobbies que lá atuam

Em outras palavras, está ficando cada vez mais claro que há uma distância razoável entre o ajuste que o mercado deseja e o que o governo tem condições de entregar. Mesmo considerando-se a capacidade de negociação do próprio ministro e o discurso afinado de toda a equipe, em comparação com o estilo dos ministros e das equipes anteriores.

 

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