Um PIB para chamar de seu

Cida Damasco

07 de março de 2017 | 11h24

Mal o IBGE divulgou a desastrosa queda de 3,6% no PIB em 2016, já começaram as manifestações das “torcidas” nas redes sociais. De um lado, é o último PIB da Dilma. De outro, é o primeiro PIB de Temer. Claro que não vale aqui se guiar pelo calendário – na melhor das hipóteses, por esse critério, seria metade da Dilma, metade de Temer.

O PIB do ano passado, já é sabido, é o resultado de um processo recessivo, que se instalou no Brasil em 2014, agravou-se em 2015 e repetiu a dose em 2016. Tudo junto e misturado, trata-se de um respeitável tombo de 7,2% no biênio 2015-2016. A combinação de estratégias econômicas equivocadas, com um quadro de forte desestabilização política, e alguma ajuda da conjuntura internacional, mergulharam o País na maior crise desde 1930. E a grande questão, hoje, é saber se, de fato, essa recessão e seus efeitos dramáticos — principalmente no mercado de trabalho — são águas passadas e, mais ainda, se a atual acomodação do quadro pode evoluir com alguma rapidez para um quadro de franca recuperação da economia.

Para essa última pergunta, especificamente, as respostas não são muito animadoras. Pelo menos quando se leva em conta a economia real, aquela que é percebida pelo conjunto da população. O desempenho da economia no último trimestre foi pior do que se previa (queda de 0,9% sobre o terceiro trimestre) e a gravidade da crise é confirmada por qualquer ângulo que se olhe o quadro: investimentos, consumo das famílias, comportamento da indústria, dos serviços e assim por diante. Mas, a julgar pelos números, essa queda forte pode “ajudar” pelo menos numa retomada estatística. Ou seja, com uma base de comparação fraca, a taxa deste ano pode ficar mais favorável.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, rebate as avaliações pessimistas do PIB de 2016 com a previsão de que, no último trimestre de 2017, a economia estará rodando com um crescimento de 2,4% sobre o mesmo período de 2016. Bastante razoável e nada capaz de provocar uma “multa” por excesso de velocidade. Para a equipe econômica, numa conjuntura como a atual, em que, dia após dia,  examinam-se exaustivamente todos os indicadores disponíveis para medir o comportamento da atividade econômica, essa comparação seria a mais adequada. E, é inegável, também a mais conveniente para o governo Temer exibir o resultado do “seu” primeiro  PIB – a previsão para o ano fechado de 2017 é de um crescimento quase imperceptível, em torno de 0,5%.

Dá para acelerar essa marcha? Apesar da impaciência generalizada – e justificada — o governo tenta resistir às pressões e manter sua receita para dar algum fôlego extra à retomada. Empurra ladeira abaixo a taxa básica de juros, a Selic, libera algum dinheiro do FGTS para os consumidores acertarem suas contas e anuncia uma segunda “tranche” do programa de concessões, com 55 projetos, incluindo a privatização de 15 companhias de saneamento estaduais. Se tudo correr bem, e se a política não atrapalhar, Temer vai poder chamar de seu, com um pouco mais de tranquilidade, o PIB de 2018.

 

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