Um sopro no consumo

Cida Damasco

28 Setembro 2017 | 18h28

 

Se o roteiro da retomada começa pelo consumo, então vamos lá. Depois de injetar quase R$ 44 bilhões na economia, via liberação das contas inativas do FGTS, o governo vai completar o pacote, com autorização da saques de mais R$ 15,9 bilhões, em recursos do PIS/Pasep. O benefício abrange cerca de 9 milhões de pessoas, com idade a partir de 62 anos, para mulheres, e 65, para homens. E os recursos deverão estarão disponíveis em três etapas, a primeira delas em 19 de outubro, para cotistas com mais de 70 anos.

A dúvida é se, desta vez, o incentivo ao consumo será parrudo como foi, inegavelmente, o do FGTS. No caso do FGTS, a estimativa inicial era de que o dinheiro acabaria absorvido quase totalmente pela quitação de dívidas, e por aí abriria caminho para os consumidores assumirem novos compromissos – o que, em última instância, faria girar a roda dos negócios. Foi bem mais do que isso. No final das contas, a participação direta do Fundo de Garantia no consumo superou a maioria das expectativas.

Segundo estudo do Ibre/FGV, até julho 25,9 milhões de trabalhadores compareceram às agências da Caixa e fizeram saques correspondentes a 2,7% do PIB: 28% desses recursos foram para consumo, 30% para poupança, 38% para quitação de dívidas e 4,5% para outras finalidades. Só para comparação, a expectativa da própria FGV, em levantamento de março, era de que 9,6% dos recursos liberados iriam para o consumo. Uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra um quadro parecido, com a destinação de 25% dos saques do FGTS para o consumo, distribuídos entre os ramos de vestuário, calçados, hipermercados e supermercados, artigos de uso pessoal, móveis e eletrodomésticos.

Exatamente por esse motivo o PIB do segundo trimestre – que cresceu 0,2% % sobre o anterior, sustentado por um aumento de 1,4% no consumo das famílias – foi batizado de PIB do FGTS. E desperta dúvidas em vários analistas quanto ao fôlego desse desempenho, agora sem o auxílio das contas inativas.

Com o saque do PIS/Pasep, tudo indica que não haverá o mesmo dinamismo. Antes de mais nada, porque o dinheiro que agora vai entrar na economia equivale a menos de 30% do disponível no caso do FGTS. Além disso, o público ao qual se destina o benefício é mais limitado. A CNC calculou que o varejo deverá ficar com cerca de R$ 4 bilhões dos recursos fo PIS/Pasep que serão liberados neste trimestre.

Não teremos um PIB do PIS/Pasep, é mais do que claro, mas algum efeito no consumo certamente haverá. Ainda mais que o dinheiro chegará às mãos da população no fim do ano, período em que a disposição para compras é natural. De todo modo, uma boa notícia. E boa notícia é tudo que o governo precisa para atravessar este novo momento da interminável crise política.