Vai ter Olimpíada?

Cida Damasco

25 Julho 2016 | 17h08

 

A 11 dias do início dos Jogos Olímpicos, o Brasil é destaque na imprensa internacional. E não é por nenhuma razão esportiva. No encerramento da corrida de obstáculos em que se transformou a preparação do País para o evento, o comitê organizador tropeçou em mais uma pedra: depois da zika, da contaminação das águas da baía de Guanabara, do desmoronamento da ciclovia, a questão agora é o despreparo das instalações da Vila Olímpica. As delegações se queixam de vazamentos de água, fios desencapados e de outros problemas prosaicos nos alojamentos destinados aos atletas

As escaramuças trocadas entre o prefeito do Rio,  Eduardo Paes, e os chefes da delegação da Austrália foram o principal tema “olímpico” deste final de semana. Exatamente aquele em que o tour da tocha por São Paulo e a inauguração da Vila Olímpica no Rio deveriam marcar o começo da festa. Paes cometeu mais uma impropriedade, ao ironizar que deveria ter providenciado “cangurus” para os apartamentos dos australianos, e estes responderam, de bate-pronto, que melhor seria chamar encanadores.

Pode ser só mais um incidente. Afinal de contas, segundo testemunhas oculares de outras Olimpíadas, obras incompletas às vésperas do início dos jogos, não são nenhuma novidade. Foi assim, por exemplo, na Olimpíada de inverno de Sochi, na Rússia. O que preocupa, no entanto, é que a “crise” com a delegação australiana seja apenas mais um indicador das atribulações do evento. Que, é voz corrente, tornou-se grande demais para o momento da economia brasileira.

Segundo dados divulgados no final do semestre pela Prefeitura do Rio, o orçamento total dos jogos é de R$ 39 bilhões: R$ 7 bilhões foram despejados na organização do evento, com investimento do próprio comitê organizador. Outros R$ 7 bilhões destinaram-se às instalações olímpicas e R$ 24 bilhões foram aplicados em obras que devem ficar como legado para a cidade. É o caso da revitalização do porto e das obras de transporte público como VLT, BRT e ampliação do metrô.

A grande diferença em relação à Copa do Mundo, como Paes insistia em destacar durante toda a preparação, é que, na Olimpíada, a iniciativa privada bancaria a maior parte das despesas: 60% dos gastos na construção de arenas e estádios seriam assegurados por meio de parcerias com a Prefeitura do Rio.

É claro que, num país polarizado como o Brasil dos últimos tempos, a Olimpíada virou uma oportunidade e tanto para ataques de um lado e de outro. Assim como na Copa, as redes sociais vocalizam a grande disputa entre os contra e os a favor dos Jogos Olímpicos. Só não se recorreu ao slogan “Não vai ter Olimpíada”, por razões óbvias. Teve Copa e o principal vexame não ocorreu fora, mas sim dentro do campo. Exatamente ao contrário do que se esperava e do que se gabavam alguns responsáveis pelo futebol brasileiro.

Vai ter Olimpíada. E é possível até que ela supere os temores de que “nada vai funcionar” e de que o País vai pagar um mico histórico.  Até porque, assim como aconteceu na Copa, há uma concentração de esforços no sentido de viabilizar o evento – força-tarefa para terminar as obras, força-tarefa para segurança, esquemas alternativos de transporte e o que mais for preciso.

Sem contar o “astral” dos brasileiros – ainda mais no Rio –, que acaba contaminando as delegações e os turistas. Na Copa, o Brasil já mostrou que é bom nisso. Só não é bom no chamado legado. Sobram dívidas, sobram obras de infra-estrutura incompletas, sobram obras esportivas sem utilização garantida. Nessa parte, não há bom astral que dê jeito.