Fim da mobilidade social

Claudio Considera

26 de abril de 2021 | 09h20

Uma das tristes heranças que os atuais ocupantes do governo federal vão deixar para o próximo presidente da República – ou para eles mesmos, caso se reelejam – é a destruição da classe C, cujos integrantes também eram chamados de ‘emergentes’.

Desalento. Foto: Marcos de Paula/Estadão

Sim, constituída por pobres que melhoravam de vida, e postulavam ter um consumo de classe média. A mobilidade social, que marcou o Brasil ao longo de século XX, tem sido enterrada pela péssima administração de sucessivos governos.

Como se destrói a ascensão de famílias a um nível superior de consumo?
Precarizando o emprego, adiando reformas urgentes, e, no atual governo, semeando a cizânia, a guerra ideológica, sem qualquer projeto econômico e social.

Tanto que prioridades como armar a população, e acabar com a exigência da cadeirinha para bebês e crianças pequenas nos automóveis, tomaram o lugar de programas educacionais, de saúde, de segurança e de emprego.

O lastimável negacionismo frente à pandemia de coronavírus, seguido de convites a aglomerações, chacotas sobre uso de máscaras e campanhas em favor de remédios ineficazes, atrasaram a retomada da economia. Investir é confiar em um horizonte de desenvolvimento. Alguém enxerga algum, sinceramente?

O desmonte da política ambiental deu o álibi esperado ansiosamente por países como a França, para melar o acordo Mercosul-União Europeia. A ‘boiada’ realmente passou, como propôs o ministro Ricardo Salles, presumivelmente do Meio Ambiente.

Reconstruir a mobilidade social dará um trabalho enorme a um (a) governante com alguma preocupação social. Sem o consumo das famílias, recordo, não há crescimento econômico sustentável.

Essa brincadeira (totalmente sem graça) vai nos custar anos e anos de atraso econômico, social, ambiental, educacional, científico e tecnológico. E destruirá o sonho de uma ou duas gerações de brasileiros.

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