A butique de negócios de R$ 150 milhões

Felipe Vanini

18 de outubro de 2010 | 14h39

Quando decidiu que era chegada a hora de vender uma parte da Talent a um sócio estrangeiro, o publicitário paulista Júlio Ribeiro pediu a indicação de um banqueiro que pudesse conduzir as negociações em seu nome ao consultor Cláudio Galeazzi, da Galeazzi & Associados. A resposta não demorou: Galeazzi sugeriu o nome de Pércio de Souza, fundador e sócio da Estáter, uma das mais ativas e conhecidas butiques de negócios do País, que conhecera nos tempos em que presidia o grupo Pão de Açúcar. “Nos conhecíamos pelos trabalhos que executamos juntos, como a fusão com a Casas Bahia”, lembra Souza. “A relação de confiança fez com que ele se sentisse à vontade para se lembrar de nós.”

A venda de 49% da Talent para o grupo francês Publicis foi o mais recente e, seguramente, o de menor porte entre os negócios fechados por Souza neste ano. Os cerca de R$ 190 milhões pagos pelos franceses a Ribeiro e seus sócios são pouco na comparação com as demais operações da Estáter, que somente no primeiro semestre do ano contabilizou R$ 7,4 bilhões em transações intermediadas, o que lhe garantiu o segundo lugar no ranking de fusões e aquisições efetivamente anunciadas no País, atrás apenas do Deutsche Bank. “Valeu pela importância do setor e pela figura do Júlio”, diz Souza. “A Talent comprovou que quando se tem nas mãos um ativo valioso é relativamente fácil fazer negócio.”

Casos como o da Talent são uma exceção na estratégia da Estáter. A empresa enxuta, com 32 funcionários, tocada por Souza e mais cinco sócios, investe no porte das transações mais do que na quantidade. “Não queremos e nem podemos ter uma atuação de varejo”, diz. “Precisamos ter tempo para analisar as empresas e setores, montar as diferentes alternativas e encontrar os melhores parceiros.” Segundo ele, embora o estreito relacionamento com nomes como Abílio Diniz – com quem trabalha desde 2002, quando era executivo do banco BBA – e Galeazzi ajude a abrir portas e atrair clientes, é preciso mais. “O decisivo é a capacidade da Estáter de gerar oportunidades”, diz Souza. “Nosso diferencial é ter ideias que maximizem o valor para os acionistas.”

Bola de cristal. Exemplo dessa postura foi a incorporação da Aracruz Celulose pelo grupo Votorantim. “Sabíamos que o acordo de acionistas da fábrica de celulose, do qual a Votorantim era parte, estava chegando ao fim”, lembra. “Procuramos a direção do grupo e levamos uma proposta de substituição do acordo antigo pela aquisição do controle da Aracruz.”

Paranaense de Curitiba, 47 anos, formado em engenharia civil, Souza prevê fechar o ano com R$ 20 bilhões em operações intermediadas. Nessas cifras estão contabilizados o fechamento da associação da Casas Bahia com o Pão de Açúcar, a compra da Quattor pela Braskem e pela Petrobrás, a aquisição da Brenco pela ETH, além da cisão da Cibepar , dos grupos Bertin e Equipav. Para o ano que vem, ele prefere não fazer prognóstico. “Não temos bola de cristal”, diz. “Temos de nos planejar e ter sempre propostas interessantes.”

O crescimento da economia, a imagem do País junto aos investidores estrangeiros e eventos como a Copa do Mundo e a Olimpíada fazem com que Souza preveja uma meia década de ouro para o empresariado brasileiro. “Somos um dos poucos países que estão crescendo”, diz. Até aqui, por sinal, Souza não tem do que reclamar. De acordo com ele, graças às comissões recebidas, a Estáter deverá terminar 2010 com um faturamento de R$ 150 milhões, um aumento de 50% sobre o obtido em 2009.

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